Você está prestes a vivenciar um dos momentos mais bonitos e, admito, estressantes da vida do seu pet. Como veterinário, já vi tutores extremamente preparados entrarem em pânico no primeiro choro de um filhote. Isso é normal. O objetivo desta conversa é te dar conhecimento técnico suficiente para que você saiba diferenciar o que é fisiológico do que é patológico. Quero que você seja meus olhos e mãos até que eu precise intervir.

Vamos deixar de lado o “achismo”. Parto é fisiologia pura, hormônios agindo em cascata e mecânica muscular. Seu papel não é fazer o parto pela cadela, mas garantir que o ambiente e as condições permitam que a natureza siga seu curso, e agir rápido se ela falhar. Pegue seu caderno, verifique as datas prováveis e vamos conversar sério sobre como trazer esses filhotes ao mundo com segurança.

Guia Completo de Obstetrícia Canina para Tutores

A Preparação do Ambiente e o Kit Parto

A Importância da Caixa de Parto e sua localização

Você precisa entender que a cadela busca instintivamente um local de toca, protegido de predadores e interferências, para parir. Se você não providenciar isso, ela vai escolher o lugar mais inconveniente possível, como o meio da sua cama ou debaixo do sofá. A caixa de parto, ou maternidade, deve ser apresentada a ela pelo menos uma semana antes da data prevista. Ela precisa ter o cheiro da fêmea e ser associada a momentos de calma e segurança, nunca de punição ou estresse.

O tamanho dessa caixa é crucial e muitas pessoas erram aqui. Ela deve ser grande o suficiente para a cadela se deitar esticada e sobrar espaço para os filhotes, mas não tão grande que os neonatos se percam da fonte de calor, que é a mãe. As laterais devem ser altas para evitar que os filhotes rolem para fora, mas com uma saída facilitada para a mãe. Uma dica de ouro que sempre dou no consultório é instalar barras de proteção interna nas laterais, os chamados “pig rails”. Isso evita que a mãe, exausta, deite acidentalmente sobre um filhote e o sufoque contra a parede da caixa.

Sobre o forro, esqueça aqueles cobertores felpudos e macios nas primeiras 24 horas. Eles escondem sujeira e, pior, os filhotes podem se enroscar nas fibras e sufocar ou ter a circulação de um membro cortada. O ideal para o momento do parto são jornais limpos em camadas grossas ou tapetes higiênicos bem fixados. Isso permite que você remova a sujeira rapidamente sem perturbar muito a mãe. Depois que o parto acabar e tudo estiver limpo, aí sim entramos com tecidos do tipo vetbed que drenam a umidade e mantêm os filhotes secos.

Controle de Temperatura e Umidade Ambiental

Os filhotes nascem sem a capacidade de termorregulação. Eles são pecilotérmicos nas primeiras semanas, o que significa que a temperatura do corpo deles varia conforme o ambiente. Se o ambiente estiver frio, eles esfriam, o metabolismo para, eles param de mamar e morrem. A hipotermia é a causa número um de morte neonatal, muito antes de doenças infecciosas. Você precisa garantir que o local do parto esteja quente, mas sem cozinhar a mãe.

O ideal é manter a temperatura ambiente em torno de 24°C a 26°C. Se você mora em uma região fria, vai precisar de aquecimento suplementar. O uso de lâmpadas de aquecimento infravermelho é excelente, mas deve ser focado em apenas um canto da caixa. Isso cria um gradiente térmico: se o filhote sentir frio, ele vai para baixo da luz; se sentir calor, ele se afasta. Se você aquecer a caixa inteira uniformemente, a mãe ficará ofegante, estressada e pode rejeitar a ninhada ou sair do ninho para se resfriar, deixando os bebês sozinhos.

A umidade também joga um papel importante. Ambientes muito secos, comuns quando usamos ar-condicionado ou aquecedores elétricos, podem ressecar as vias aéreas dos neonatos, que são minúsculas. Tente manter a umidade em torno de 55-60%. Se for necessário, use um umidificador no quarto, mas longe da caixa para não molhar o ninho. Lembre-se que filhote molhado (do líquido amniótico) em ambiente frio é receita para o desastre. A secagem rápida e o aquecimento externo são suas prioridades imediatas.

O Kit de Emergência Obstétrica em Casa

Não espere o trabalho de parto começar para sair correndo atrás de tesoura. Você precisa ter uma caixa plástica limpa, exclusiva para esse momento, com todos os itens organizados. O primeiro item é o contato do seu veterinário e o endereço de um hospital 24 horas. Partos não respeitam horário comercial e você precisa saber para onde ir se algo der errado às 3 da manhã.

Dentro do kit, tenha fio dental sem sabor ou pinças hemostáticas para clampear o cordão umbilical. Tenha uma tesoura de ponta romba (arredondada) para cortar o cordão; a ponta romba evita que você perfure a barriga do filhote se ele se mexer bruscamente. O antisséptico é fundamental, e o iodo a 2% ou clorexidina são os mais indicados para cauterizar o coto umbilical e prevenir a entrada de bactérias que causam onfaloflebite.

Além disso, tenha muitas toalhas de rosto limpas e secas para esfregar os filhotes. Uma balança de precisão (de cozinha serve) é vital para pesar os filhotes ao nascer e monitorar o ganho de peso diário. Tenha também seringas de bulbo ou um aspirador nasal pediátrico para limpar as vias aéreas de fluidos. E, claro, luvas de procedimento. Você não quer introduzir bactérias da sua mão no canal de parto da cadela.

Fisiologia e Sinais do Pré-Parto Imediato

O Monitoramento da Temperatura Retal

Este é o indicador mais confiável que temos de que o parto vai acontecer nas próximas 12 a 24 horas. A progesterona é o hormônio que mantém a gestação; ela é termogênica, ou seja, mantém a temperatura corporal da cadela elevada. Quando os fetos estão prontos, eles liberam cortisol, que sinaliza para o corpo da mãe que a progesterona deve cair abruptamente.

Quando a progesterona cai, a temperatura da cadela cai junto. Você deve começar a medir a temperatura retal da sua cadela duas vezes ao dia a partir do 58º dia de gestação. A temperatura normal de um cão varia entre 38°C e 39°C. Cerca de 24 horas antes do parto, essa temperatura pode cair para 37°C ou até menos (36.5°C em raças pequenas).

Se você detectou essa queda brusca, o relógio começou a correr. Se a temperatura caiu e voltou a subir sem que o trabalho de parto tenha começado, isso pode indicar sofrimento fetal e morte dos filhotes, e você deve me procurar imediatamente. Portanto, faça um gráfico. Anote as temperaturas de manhã e à noite. Essa queda é o seu sinal verde de que a primeira fase do trabalho de parto começou.

Alterações Comportamentais e “Nesting”

Você vai notar que sua cadela muda de personalidade. Aquela cachorra calma pode ficar agitada, andando de um lado para o outro, cavando o chão, arranhando a parede ou destruindo a cama dela. Chamamos isso de comportamento de “nesting” ou nidificação. É um instinto ancestral de construir um abrigo seguro. Não a repreenda. Deixe-a expressar esse comportamento, mas direcione-a gentilmente para a caixa de parto que preparamos.

Além da agitação, muitas cadelas tornam-se inapetentes. Elas podem recusar a comida favorita ou comer e vomitar em seguida. Isso acontece porque o útero está enorme, comprimindo o estômago, e também devido às náuseas causadas pelas mudanças hormonais. Não force a alimentação. Mantenha água fresca disponível, mas entenda que o jejum nas horas que antecedem o parto é fisiológico e até benéfico para evitar vômitos durante a força das contrações.

Outra mudança é o “olhar”. Tutores muito conectados com seus animais relatam que a cadela parece olhar “para dentro”, fica distante ou excessivamente carente, pedindo colo e atenção constante. Respeite o perfil dela. Se ela quer sua companhia, sente-se ao lado da caixa. Se ela quer se esconder, não fique invadindo o espaço dela a todo momento. O estresse libera adrenalina, e a adrenalina antagoniza a ocitocina, o hormônio que faz o útero contrair. Estresse pode, literalmente, parar o parto.

Alterações Físicas na Vulva e Glândulas Mamárias

Fisicamente, o corpo dela está gritando que o momento chegou. A vulva, que já estava edemaciada (inchada) durante a gestação, fica ainda maior e extremamente relaxada. Você pode notar uma secreção mucosa clara e filante, que é o tampão mucoso se dissolvendo. Isso é normal e serve para lubrificar o canal de parto.

As glândulas mamárias e os tetos estarão aumentados e túrgidos. Em muitas cadelas, você já consegue extrair colostro (o primeiro leite) dias antes do parto. Em primíparas (cadelas de primeira viagem), o leite pode descer apenas no momento exato do parto ou horas depois. Verifique se os mamilos estão limpos e se não há pelos em excesso ao redor que possam atrapalhar a pega do filhote. Se necessário, faça uma tosa higiênica delicada na região abdominal.

Observe também o abdômen. Dias antes do parto, o útero “desce”. A barriga que estava redonda e alta parece pender para baixo, e a linha superior da coluna da cadela fica mais evidente, com os flancos afundados. Isso ocorre pelo relaxamento dos ligamentos pélvicos e abdominais, facilitando a passagem dos fetos. É a preparação mecânica final para a expulsão.

O Trabalho de Parto em Três Estágios

Estágio 1: Dilatação Cervical e Contrações Invisíveis

Este estágio é o mais longo e pode durar de 6 a 12 horas, podendo chegar a 24 horas em cadelas de primeira cria. Aqui, o colo do útero está se abrindo. Você não verá contrações abdominais fortes visíveis. A cadela estará desconfortável, ofegante, pode tremer e olhar para os flancos como se tivesse cólica — porque ela tem. O útero está contraindo, mas de forma não expulsiva, apenas para posicionar os fetos e abrir o caminho.

Durante essa fase, não intervenha. Apenas observe. Mantenha o ambiente calmo e silencioso. Se ela quiser sair para urinar ou defecar, leve-a (sempre na guia, para ela não correr e ter o filhote no jardim). Muitas vezes, a pressão do feto na pélvis simula a vontade de defecar. Fique atento se ela fizer força para defecar e nada sair; pode ser um filhote já no canal.

A respiração ofegante é intensa nesta fase. Não confunda com calor excessivo, embora você deva checar a temperatura ambiente. É dor e ansiedade. Se esse estágio passar de 24 horas sem que nenhum filhote nasça, temos um problema de inércia uterina primária ou uma falha na dilatação, e a cesariana pode ser necessária.

Estágio 2: A Expulsão dos Fatos e a Ruptura da Bolsa

Aqui a ação começa. As contrações uterinas tornam-se fortes e são acompanhadas pelo esforço abdominal visível. Você verá a barriga da cadela contrair vigorosamente. O filhote entra no canal de parto e a pressão desencadeia o reflexo de Ferguson, que libera ondas massivas de ocitocina, aumentando ainda mais as contrações.

Normalmente, você verá uma bolsa de líquido (a bolsa alantoide) se romper primeiro, liberando um líquido claro. Logo depois, vem o filhote, envolto na membrana amniótica. Eles podem nascer de cabeça (apresentação anterior) ou de traseiro (apresentação posterior). Em cães, nascer “de pé” ou de traseiro é considerado normal e ocorre em cerca de 40% dos casos, diferentemente dos humanos.

A cadela deve lamber vigorosamente a vulva, romper a membrana com os dentes e começar a lamber o filhote. Esse ato de lamber não é apenas limpeza; é uma massagem vigorosa que estimula a respiração do recém-nascido. O intervalo entre o início das contrações fortes e a expulsão do filhote não deve passar de 30 minutos. Se ela fizer força intensa por mais de 30 minutos sem sair nada, corra para o veterinário.

Estágio 3: A Expulsão da Placenta e Involução

Logo após o nascimento do filhote (ou às vezes junto com ele), sai a placenta. É um tecido escuro, esverdeado ou avermelhado. É fundamental que você conte as placentas. Deve haver uma placenta para cada filhote. Se uma placenta ficar retida dentro do útero, ela vai se decompor e causar uma infecção grave chamada metrite, que pode ser fatal para a mãe e fazer o leite secar ou se tornar tóxico.

A cadela instintivamente vai querer comer as placentas. Isso é um traço evolutivo para esconder vestígios do parto de predadores e recuperar nutrientes. Você pode deixar ela comer uma ou duas, mas evite que ela coma todas se a ninhada for grande. O excesso de tecido placentário causa uma diarreia profusa e vômitos no dia seguinte, o que é péssimo para uma mãe que precisa amamentar.

Entre o nascimento de um filhote e outro, a cadela pode descansar. Esse intervalo pode variar de 15 minutos a 2 horas. Durante esse descanso, ela cuida dos nascidos e relaxa. Se esse intervalo passar de 2 horas, ou se passar de 4 horas sem nenhum sinal de esforço, mesmo que você saiba que ainda há filhotes, precisamos intervir. O útero pode ter cansado.

Intervenção do Tutor e Primeiros Socorros Neonatais

Desobstrução das Vias Aéreas e Estímulo Cardiorrespiratório

Se a cadela não romper o saco amniótico imediatamente, você tem segundos para agir. Rasgue a membrana com os dedos na região do focinho. Pegue o filhote com uma toalha seca. A primeira coisa é tirar o líquido do nariz e boca. Use o aspirador nasal ou a seringa de bulbo delicadamente.

Nunca, jamais sacuda o filhote segurando pela cabeça ou faça movimentos bruscos de “machado” que antigamente ensinavam. Isso causa hemorragia cerebral e danos cervicais. A maneira correta é segurar o filhote de cabeça para baixo, apoiando bem a cabeça e o pescoço, e deixar a gravidade ajudar, enquanto você esfrega o tórax dele vigorosamente com a toalha.

O choro é um bom sinal. Significa que os pulmões expandiram e o ar está entrando. Se o filhote estiver roxo (cianótico) e flácido, continue esfregando. A fricção nas costas e costelas estimula os nervos que ativam a respiração. Não desista rápido. Às vezes, leva 15 ou 20 minutos de estimulação para um filhote “afogado” voltar.

O Manejo do Cordão Umbilical

Se a mãe não cortar o cordão, você fará isso. Espere um ou dois minutos após o nascimento, pois ainda há sangue passando da placenta para o filhote. Amarre o fio dental a cerca de 2 cm da barriga do filhote. Faça um nó firme. Se quiser segurança extra, faça outro nó um pouco mais distante.

Corte com a tesoura limpa entre o nó e a placenta. Não puxe o cordão! Se você puxar, pode causar uma hérnia umbilical ou até eviscerar o filhote. O corte deve ser limpo. Logo após cortar, mergulhe a ponta do coto umbilical no iodo ou clorexidina. Isso seca o cordão e fecha a porta para bactérias.

Monitore esse umbigo nos dias seguintes. Ele deve secar e cair. Se ficar vermelho, inchado ou com pus, é sinal de infecção e o filhote precisa de antibiótico imediatamente, pois a sepse neonatal mata em horas.

A Importância Vital do Colostro

Nas primeiras 12 a 24 horas de vida, o intestino do filhote é permeável a grandes proteínas. Isso permite que ele absorva os anticorpos da mãe presentes no colostro. Depois desse período, o intestino “fecha” e ele não absorve mais essa imunidade passiva. Um filhote que não mamou colostro é um filhote com sistema imune zerado.

Garanta que cada filhote mame logo após estar seco e aquecido. Se o filhote for fraco e não tiver reflexo de sucção, você pode precisar ordenhar um pouco de colostro da mãe e dar na boca dele com uma seringa, gota a gota. O reflexo de sucção também estimula a produção de ocitocina na mãe, ajudando a expulsar as próximas placentas e a contrair o útero.

Não use leite de vaca ou fórmulas caseiras sem necessidade extrema. Se a mãe não tiver leite, use sucedâneos comerciais próprios para cães (fórmulas caninas). O leite de vaca tem muita lactose e pouca proteína/gordura comparado ao leite de cadela, causando diarreia e desnutrição.

Identificando a Distocia e Sinais de Alerta

Inércia Uterina Primária e Secundária

Distocia significa parto difícil. A causa mais comum é a inércia uterina. Na inércia primária, o útero simplesmente não responde. A cadela entra no prazo do parto, a temperatura cai, mas as contrações nunca começam efetivamente. Isso é comum em cadelas idosas, obesas ou com ninhadas muito pequenas (apenas 1 ou 2 filhotes não estimulam o útero o suficiente) ou muito grandes (o útero distende tanto que perde força).

A inércia secundária ocorre quando a cadela já pariu alguns filhotes, mas o útero exauriu. Acabou a energia muscular e o cálcio disponível. Ela para de fazer força, mesmo tendo filhotes lá dentro. Se você notar que o parto parou e a mãe está exausta, não espere “o dia seguinte”. Filhotes retidos morrem e colocam a vida da mãe em risco.

Nesses casos, o veterinário pode tentar o uso controlado de cálcio e ocitocina injetáveis, mas somente após avaliar se não há obstrução. Dar ocitocina se houver um filhote atravessado pode romper o útero.

Apresentações Fetais Anormais e Obstrução

Às vezes o motor (útero) funciona, mas o passageiro (filhote) está entalado. Um filhote muito grande, ou posicionado transversalmente (atravessado), ou com a cabeça dobrada para trás, não passa no canal pélvico.

Se você vê a cadela fazendo força intensa, contínua, gritando de dor e nada sai, é obstrução. Se você vê partes do filhote (uma patinha só) e ele não progride por 15 minutos, está travado. Nunca puxe um membro sozinho, você pode arrancá-lo. Você pode tentar lubrificar o canal com bastante gel lubrificante à base de água e, gentilmente, tentar rotacionar se tiver experiência, mas o ideal é correr para a clínica.

Raças braquicefálicas (Bulldogs, Pugs) têm cabeças muito largas em relação à pélvis da mãe. Nessas raças, a cesariana agendada é quase uma regra ética para evitar sofrimento e morte.

Sinais de Sofrimento Fetal e Materno

Fique atento à cor das secreções vaginais. Antes do primeiro filhote, uma secreção verde-escura ou preta é um sinal de emergência absoluta. Essa cor vem da uteroverdina, um pigmento das margens da placenta. Se você vê isso antes do filhote nascer, significa que a placenta descolou lá dentro. O filhote não está mais recebendo oxigênio da mãe. Ele precisa nascer imediatamente ou morrerá asfixiado.

Outro sinal de alerta é o sangramento profuso, vermelho vivo e contínuo. Um pouco de sangue é normal, hemorragia não. A cadela também não deve apresentar sinais de choque: gengivas pálidas ou brancas, fraqueza extrema, desmaio.

O Puerpério e Cuidados com a Mãe no Pós-Parto

Monitoramento da Secreção Vaginal (Lóquia)

O útero leva semanas para voltar ao tamanho normal. Durante esse tempo, a cadela eliminará a lóquia. Nos primeiros dias, é esverdeada ou marrom-avermelhada, sem cheiro podre. Com o passar das semanas, ela fica mais clara, rosada, até virar um muco transparente.

Se essa secreção tiver cheiro fétido, de carne podre, ou se a cadela tiver febre, parar de comer e abandonar os filhotes, suspeite de infecção uterina. Isso requer antibióticos e internação. Mantenha a higiene da vulva da cadela, limpando com soro fisiológico se necessário, para evitar que a sujeira suba para o útero ou contamine os filhotes na amamentação.

Prevenção de Eclampsia e Hipocalcemia

A eclampsia, ou febre do leite, não é uma infecção, é a queda brusca de cálcio no sangue. Acontece geralmente no pico da lactação (2 a 3 semanas pós-parto), mas pode ocorrer logo após o parto. Cadelas de raças pequenas com muitos filhotes são o grupo de risco.

Os sinais são tremores musculares, rigidez ao andar, ofejo excessivo, febre alta e convulsões. É uma emergência fatal. Se você notar que a cadela está “dura”, tremendo e agindo de forma estranha, leve-a ao vet. O tratamento é cálcio na veia. Evite dar suplemento de cálcio durante a gravidez sem indicação, pois isso desregula o sistema da tireoide e predispõe à eclampsia depois. O cálcio entra na dieta depois que os filhotes nascem.

Manejo Nutricional Durante a Lactação

Produzir leite exige mais energia do que gestar. A cadela precisa comer “ad libitum” — ou seja, comida à vontade. Mas não qualquer comida. Ela precisa de ração de filhote (crescimento) de super premium qualidade, pois é rica em energia, proteína e cálcio.

A hidratação é o segredo do leite. Se ela não beber água, o leite seca. Espalhe potes de água fresca perto do ninho. Muitas cadelas não querem sair de perto dos filhotes nem para beber, então leve a água até ela. Sopas e caldos sem tempero também ajudam a aumentar a ingestão hídrica.

Comparativo de Sucedâneos do Leite Materno

Para finalizar, se você precisar suplementar os filhotes, veja este comparativo rápido para não errar na escolha:

Tipo de ProdutoPrósContrasVeredito Veterinário
Sucedâneo Comercial Canino (Pet Milk, etc.)Formulado especificamente para cães; equilíbrio correto de gordura/proteína; baixa lactose; vitaminas adicionadas.Custo mais elevado; necessidade de preparo correto (diluição) para não causar constipação.A melhor escolha. É o mais seguro e nutricionalmente completo para o desenvolvimento do neonato.
Leite de Vaca IntegralFácil acesso e barato.Teor de lactose muito alto (diarreia); pouca gordura e proteína comparado ao leite canino; deficiente nutricionalmente.Evite. Use apenas em emergência absoluta por poucas horas até comprar o correto. Causa desnutrição a longo prazo.
Leite de CabraMelhor digestibilidade que o de vaca; glóbulos de gordura menores.Ainda não é perfeitamente balanceado para cães (precisa de suplementação de gordura); difícil acesso em alguns lugares.Opção intermediária. Aceitável se fortificado com gema de ovo e creme de leite (receita caseira supervisionada), mas inferior ao comercial.

Espero que este guia tenha te deixado mais tranquilo e preparado. Lembre-se: a maioria dos partos corre bem, a natureza é sábia. Mas a sua observação atenta é o seguro de vida dessa nova família. Mantenha a calma, confie nos seus instintos e tenha o número do veterinário na discagem rápida.