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Você chega em casa depois de um dia longo de trabalho e vai cumprimentar seu amigo peludo. Ele te recebe com aquela alegria de sempre. Mas ao olhar fixamente para o rosto dele você percebe algo diferente. Um dos olhos ou talvez os dois estão vermelhos e irritados. Aquela parte branca que chamamos de esclera está injetada de sangue.
A primeira reação de nós tutores é quase sempre pensar que entrou algum cisco ou que é apenas uma irritação passageira. No entanto na minha rotina clínica vejo diariamente como o “olho vermelho” é um sinal de alerta inespecífico. Ele funciona como uma luz de painel de carro que acende para avisar que algo no sistema não está funcionando como deveria. Pode ser algo simples como uma alergia ou algo complexo que ameaça a visão do seu pet.
O olho é um órgão extremamente sensível e que não perdoa a falta de tratamento rápido. A vascularização intensa que você vê como vermelhidão é a resposta do organismo tentando enviar células de defesa para combater uma agressão. Entender o que está por trás dessa reação inflamatória é o primeiro passo para garantir que seu cão continue enxergando o mundo com clareza e sem dor. Vamos conversar sobre isso como se você estivesse aqui na minha mesa de atendimento.
As causas infecciosas e inflamatórias mais rotineiras
A famosa conjuntivite canina e suas variações
A conjuntivite é sem dúvida o diagnóstico que mais vem à cabeça dos tutores quando veem um olho vermelho. Ela consiste na inflamação da conjuntiva que é aquela membrana fina e transparente que recobre a parte branca do olho e a face interna das pálpebras. Quando ela inflama os vasos sanguíneos se dilatam e dão aquele aspecto de sangue vivo ao olho. Mas diferentemente dos humanos a conjuntivite primária infecciosa é rara em cães.
Na maioria das vezes que atendo um cão com conjuntivite ela é secundária a outra coisa. Pode ser uma alergia a pólen ou produtos de limpeza ou uma reação a um corpo estranho. A secreção é um indicativo importante aqui. Se for transparente e aquosa pensamos em alergias ou vírus. Se for amarelada ou esverdeada indica presença de bactérias oportunistas que aproveitaram a inflamação para se instalar.
O tratamento nunca deve ser feito com aquele colírio que sobrou da vovó na gaveta. O uso indiscriminado de colírios humanos pode mascarar sintomas ou piorar quadros virais. Nós precisamos identificar a causa base. Se tratarmos apenas a conjuntivite sem descobrir se ela vem de uma alergia atópica o problema vai voltar assim que o colírio acabar. A recorrência é o maior sinal de que não estamos tratando a causa raiz.
Ceratoconjuntivite seca ou a síndrome do olho seco
Imagine ter areia nos olhos 24 horas por dia. Essa é a sensação que descreve a Ceratoconjuntivite Seca ou simplesmente “olho seco”. Essa condição ocorre quando as glândulas lacrimais do cão param de produzir a quantidade adequada de lágrima ou produzem uma lágrima de má qualidade que evapora muito rápido. Sem essa lubrificação o atrito da pálpebra com a córnea gera uma inflamação crônica intensa.
O olho fica vermelho não apenas pela inflamação mas também pela tentativa do corpo de levar sangue para a região para tentar “consertar” o dano. Com o tempo a córnea que deveria ser transparente começa a ficar pigmentada e escura e vasos sanguíneos começam a crescer sobre ela como raízes de uma árvore. Você percebe uma secreção muito espessa e grudenta parecida com catarro que se acumula nos cantos dos olhos e que volta minutos depois de você limpar.
Essa é uma doença que exige compromisso vitalício do tutor. Não existe cura mágica mas existe controle eficaz. O uso de imunomoduladores e lubrificantes específicos faz com que a glândula volte a trabalhar ou substitui a lágrima que falta. Ignorar o olho seco é condenar o cão a perder a visão gradativamente além de viver com um desconforto constante que muitas vezes ele não manifesta chorando mas ficando mais quieto e com o olho semicerrado.
Úlceras de córnea e o perigo das lesões invisíveis
A córnea é a janela do olho. Ela é a camada mais externa e transparente. Uma úlcera de córnea nada mais é do que uma ferida nessa superfície. Pode acontecer por um arranhão brincando com outro cão por esfregar o rosto no tapete ou até pelo próprio ato de coçar o olho com a pata. A vermelhidão nesses casos é intensa e geralmente acompanhada de dor aguda. O cão pisca excessivamente ou mantém o olho fechado que chamamos de blefaroespasmo.
O grande perigo das úlceras é que muitas vezes elas não são visíveis a olho nu. Você vê o olho vermelho mas não vê o buraco na córnea. Se você usar um colírio com corticoide em um olho com úlcera você pode causar a perfuração do olho em questão de dias. O corticoide impede a cicatrização e “derrete” a estrutura da córnea. Por isso nós veterinários temos pavor de automedicação oftalmológica.
As úlceras podem ser superficiais cicatrizando rápido com tratamento correto ou profundas atingindo camadas internas do olho. As raças de olhos grandes e proeminentes são fábricas de úlceras de córnea. O tratamento envolve antibióticos para evitar infecção e analgésicos potentes. Em casos graves onde a úlcera não fecha precisamos intervir cirurgicamente para fazer um recobrimento com a própria pálpebra do animal para proteger a lesão enquanto ela cura.
Alterações anatômicas e problemas de pálpebra
Entrópio e Ectrópio: Quando a pálpebra é a vilã
A anatomia das pálpebras deve ser perfeita para proteger o olho. No entanto em muitas raças vemos falhas nessa engenharia genética. O entrópio ocorre quando a margem da pálpebra vira para dentro do olho. Imagine os cílios e os pelos da pele roçando diretamente na córnea a cada piscada. São milhares de agressões por dia. Isso gera um olho perpetuamente vermelho irritado e dolorido.
Já o ectrópio é o oposto. A pálpebra vira para fora deixando a conjuntiva exposta e o “saco” conjuntival aberto. Vemos muito isso em cães como o Basset Hound e o São Bernardo. Essa exposição facilita a entrada de poeira bactérias e resseca a região. A vermelhidão aqui é causada pela exposição crônica ao ambiente sem a proteção adequada da pálpebra que deveria fechar direitinho.
Ambos os casos são corrigidos cirurgicamente. Não adianta encher o cão de colírios e antibióticos se a causa mecânica continua lá. A cirurgia plástica ocular nesses casos não é estética é uma necessidade de saúde e bem-estar. Após a correção a vermelhidão desaparece e o cão muda de comportamento ficando mais ativo pois finalmente se livrou de uma dor crônica que o incomodava.
Prolapso da glândula da terceira pálpebra (Cherry Eye)
Cães possuem uma estrutura incrível chamada terceira pálpebra ou membrana nictitante que fica no canto interno do olho. Na base dessa membrana existe uma glândula responsável por produzir uma parte significativa da lágrima. Em alguns animais essa glândula “salta” para fora e fica exposta parecendo uma pequena cereja vermelha no canto do olho. Daí o nome popular “Cherry Eye”.
A massa vermelha que você vê não é um tumor é a própria glândula inflamada e inchada por estar fora do lugar. O olho fica vermelho ao redor por causa da irritação que essa estrutura causa e pelo ressecamento. Muitos tutores acham que é só empurrar de volta ou que vai sumir sozinho. Infelizmente isso raramente acontece. Quanto mais tempo a glândula fica exposta mais ela se lesiona e perde função.
Antigamente removia-se essa glândula. Hoje sabemos que isso é um erro gravíssimo. Remover a glândula da terceira pálpebra condena o cão a ter olho seco severo no futuro. A técnica correta é cirúrgica onde recolocamos a glândula no bolso dela e damos pontos para que ela não saia mais. É um procedimento delicado mas que preserva a produção de lágrima e a saúde do olho a longo prazo.
Cílios fora do lugar: Distiquíase e Cílios Ectópicos
Às vezes o inimigo é minúsculo e quase invisível. A distiquíase acontece quando cílios nascem em lugares onde não deveriam existir especificamente na linha das glândulas da pálpebra voltados para o olho. Eles funcionam como agulhas finas tocando a córnea. O cão fica com o olho vermelho lacrimeja muito e coça o rosto tentando se livrar daquele incômodo que nunca passa.
Já o cílio ectópico é ainda mais traiçoeiro. Ele cresce através da conjuntiva palpebral apontando diretamente para o globo ocular como uma lança. Esse tipo costuma causar úlceras de córnea recorrentes exatamente no mesmo lugar. Você trata a úlcera ela fecha e duas semanas depois abre de novo porque o cílio continua lá ferindo o local a cada movimento do olho.
O diagnóstico desses problemas exige equipamentos de magnificação como lupas ou lâmpadas de fenda no consultório. A olho nu é muito difícil ver esses pelos finos e claros. O tratamento envolve a remoção definitiva desses folículos seja por cirurgia criocirurgia (congelamento) ou eletrodepilação. Apenas arrancar com a pinça resolve por poucos dias pois o pelo cresce novamente mais grosso e duro.
Quadros de alta gravidade e emergência oftálmica
Glaucoma: O aumento silencioso da pressão intraocular
Se existe uma palavra que causa arrepios em oftalmologia veterinária essa palavra é Glaucoma. Ocorre quando o fluido que circula dentro do olho (humor aquoso) não consegue ser drenado corretamente mas continua sendo produzido. Isso faz a pressão interna do olho subir rapidamente. O olho fica muito vermelho com os vasos da esclera grossos e tortuosos que chamamos de “vasos em cabeça de medusa”.
O glaucoma dói. E dói muito. É comparável a uma enxaqueca brutal que não passa. O cão pode ficar prostrado parar de comer ou esfregar a cabeça contra a parede. Além da vermelhidão você pode notar que o olho parece maior saltado e a córnea pode ficar azulada como uma névoa. A pupila geralmente fica dilatada e não responde à luz. É uma emergência médica absoluta.
A cegueira pelo glaucoma pode ser irreversível em questão de 24 a 48 horas se a pressão não for controlada. O nervo óptico morre comprimido pela pressão alta. Nosso objetivo no tratamento é primeiro salvar a visão e segundo tirar a dor. Usamos colírios potentes e diuréticos para baixar a pressão. Infelizmente em casos crônicos onde a visão já foi perdida o foco passa a ser apenas o controle da dor ou procedimentos para diminuir a produção do líquido intraocular.
Uveíte: A inflamação interna que você não vê
A uveíte é a inflamação da úvea a camada média do olho que é rica em vasos sanguíneos. Diferente da conjuntivite que é externa a uveíte é um problema interno. O olho fica vermelho mas de uma forma mais profunda perto da íris (a parte colorida). A pupila costuma ficar contraída (miose) bem pequena diferentemente do glaucoma. A íris pode mudar de cor ficando mais escura ou turva.
O que torna a uveíte preocupante é que ela quase sempre é sintoma de uma doença sistêmica. Doenças do carrapato como a Erliquiose Leishmaniose infecções uterinas (piometra) ou até linfomas podem causar uveíte. O olho vermelho aqui é o corpo gritando que há uma infecção ou inflamação grave acontecendo em algum lugar do organismo.
O tratamento da uveíte envolve tratar o olho para evitar sequelas como a formação de aderências na pupila ou catarata e tratar a doença de base. Precisamos de exames de sangue completos ultrassom e testes rápidos para doenças infecciosas. Se tratarmos só o olho com colírio anti-inflamatório a uveíte vai voltar ou piorar pois a doença sistêmica continua ativa.
Hifema e hemorragia intraoculares
Hifema é o termo técnico para a presença de sangue dentro da câmara anterior do olho. Você olha para o olho do cão e vê um nível de sangue lá dentro como se fosse um copo meio cheio de líquido vermelho. Isso deixa o olho com uma aparência assustadora de vermelho profundo e opaco. Pode ser total cobrindo toda a cor do olho ou parcial depositado na parte de baixo.
As causas variam desde traumas fortes como uma batida ou atropelamento até problemas de coagulação sanguínea envenenamento por raticida ou tumores intraoculares que sangram. Também pode ser uma consequência de uma uveíte severa ou descolamento de retina. É uma condição que coloca a visão em risco imediato pois o sangue pode obstruir a drenagem do olho e causar um glaucoma secundário.
O repouso absoluto é fundamental nesses casos. Se o cão se agitar o sangramento pode recomeçar. Evitamos qualquer compressão no pescoço usando peitorais em vez de coleiras. O tratamento médico visa controlar a inflamação e permitir que o corpo reabsorva esse sangue. Investigar a causa da hemorragia é vital pois se for um problema de coagulação o cão pode ter sangramentos internos em outros órgãos.
O exame oftalmológico passo a passo no consultório
O Teste de Schirmer para medir a lágrima
Você já deve ter visto no consultório o veterinário colocar uma tirinha de papel dentro da pálpebra do seu cão e esperar um minuto. Esse é o Teste de Schirmer. É o padrão ouro para diagnosticar o olho seco que mencionei antes. Ele mede a quantidade de lágrima produzida em 60 segundos. É um teste simples barato e que nos dá uma resposta numérica imediata.
O papel possui uma escala milimetrada e um corante azul que avança conforme o papel fica molhado. Em um cão normal esperamos que a lágrima molhe mais de 15mm do papel em um minuto. Se o resultado for abaixo de 10mm temos uma deficiência significativa. Se for zero o quadro é grave. Realizamos esse teste antes de pingar qualquer colírio ou limpar o olho para não alterar o resultado real.
Muitas vezes o olho vermelho é tratado como infecção por meses com antibióticos sem sucesso. Quando fazemos o Schirmer descobrimos que na verdade falta lágrima. Sem esse diagnóstico básico o tratamento fica andando em círculos. Por isso em qualquer caso de olho vermelho ou secreção esse teste deve ser o primeiro passo do exame físico.
O uso da Fluoresceína para detectar úlceras
A fluoresceína é aquele colírio laranja que pingamos no olho e que deixa tudo verde fluorescente. É um corante vital que tem afinidade por água. A superfície da córnea íntegra é lipofílica (gosta de gordura) e repele o corante. No entanto a camada abaixo dela o estroma é hidrofílica. Então se houver qualquer arranhão ou buraco na córnea o corante gruda nessa área.
Quando apagamos a luz da sala e usamos uma luz azul cobalto a área da úlcera brilha em um verde neon intenso. Isso nos permite ver a extensão exata e a profundidade da lesão. Às vezes a úlcera é puntiforme pequena como a ponta de uma agulha mas causa dor imensa. Sem a fluoresceína essas microlesões passariam despercebidas a olho nu.
Além de diagnosticar úlceras a fluoresceína também nos ajuda a ver se o canal da lágrima está desentupido. Se pingarmos no olho e depois de alguns minutos sair corante verde pelo nariz do cão (o Teste de Jones) sabemos que a drenagem está funcionando. Se não sair pode haver obstrução no ducto nasolacrimal o que explica casos de epífora (lacrimejamento excessivo que mancha o pelo).
A Tonometria e a medição da pressão do olho
Assim como medimos a pressão arterial precisamos medir a pressão intraocular. O aparelho que usamos chama-se tonômetro. Existem modelos de sopro e modelos de rebote ou aplanação que tocam suavemente a córnea. É um procedimento indolor feito com colírio anestésico local e o cão geralmente nem percebe.
A pressão normal de um cão varia entre 10 e 25 mmHg. Valores acima disso são indicativos de glaucoma enquanto valores muito baixos (abaixo de 10) sugerem uveíte (inflamação interna). O tato do veterinário (apertar o olho com o dedo) não é confiável para medir pressão a menos que ela esteja extremamente alta. Precisamos do número exato para guiar o tratamento.
Monitorar a pressão é vital em raças predispostas ou em olhos que já sofreram traumas. Muitas vezes detectamos um aumento de pressão antes mesmo do olho ficar vermelho ou doloroso o que nos dá uma janela de oportunidade valiosa para iniciar o tratamento preventivo e salvar a visão do animal por mais tempo.
Raças predispostas e a anatomia braquicefálica
A exposição ocular em Pugs, Buldogues e Shih Tzus
Os cães braquicefálicos esses de focinho achatado possuem órbitas oculares muito rasas. Isso faz com que os olhos sejam projetados para fora uma condição chamada exoftalmia. Embora seja charmoso e característica da raça isso deixa o globo ocular extremamente vulnerável a traumas. Eles batem o olho em móveis plantas e até na tigela de comida com facilidade.
Além da exposição física existe a dificuldade de piscar completamente. As pálpebras muitas vezes não conseguem cobrir toda a superfície desse olho saltado durante o piscar. Isso cria uma faixa central na córnea que fica permanentemente ressecada e propensa a pigmentação e úlceras. O olho vermelho nessas raças é quase uma constante se não houver cuidado preventivo diário.
Para esses cães a lubrificação preventiva não é luxo é necessidade básica. Tutores dessas raças devem ter o hábito de aplicar lubrificantes oculares diariamente desde filhotes para proteger essa córnea exposta. Qualquer vermelhidão num Pug ou Buldogue Francês deve ser encarada como urgência pois o risco de perfuração ocular neles é muito maior e mais rápido do que em um Pastor Alemão por exemplo.
Lagoftalmia: Quando o cão não fecha o olho totalmente
A lagoftalmia é a incapacidade de fechar as pálpebras completamente. Isso pode acontecer durante o sono. Você já reparou se seu cão dorme com uma frestinha do olho aberta? Essa fresta deixa a córnea exposta ao ar secando-a continuamente durante horas de sono. Ao acordar o olho está vermelho irritado e com secreção.
Isso é muito comum nos braquicefálicos que mencionei mas também pode ocorrer em cães idosos com flacidez facial ou após paralisias faciais. A córnea precisa estar úmida para se manter transparente e saudável. O ressecamento crônico pela lagoftalmia leva à queratite pigmentar onde o olho cria uma “pele” escura para se proteger acabando com a visão naquele ponto.
O teste é simples: toque o canto do olho do cão (reflexo palpebral). Ele deve fechar o olho totalmente. Se as pálpebras superior e inferior não se tocarem temos um problema. O tratamento muitas vezes envolve cirurgia para diminuir a abertura das pálpebras (cantoplastia) tornando o tamanho da fenda palpebral compatível com o tamanho do olho garantindo um fechamento perfeito.
Sensibilidade corneal reduzida em focinhos curtos
Um dado curioso e perigoso da medicina veterinária é que a córnea dos cães de focinho curto é menos sensível ao toque do que a dos cães de focinho longo (mesocefálicos ou dolicocefálicos). Isso significa que eles sentem menos dor quando machucam o olho. Parece bom mas é péssimo. A dor é um mecanismo de defesa que avisa para fechar o olho ou se afastar do perigo.
Como eles sentem menos o cão com uma úlcera de córnea pode continuar brincando esfregando o rosto e piorando a lesão sem demonstrar tanto incômodo inicial quanto um cão de outra raça demonstraria. O tutor só percebe quando o olho já está muito vermelho ou a úlcera já está profunda e infectada “derretendo”.
Por isso a inspeção visual ativa é mais importante nessas raças do que esperar sinais de dor. Criar uma rotina de olhar nos olhos do seu cão sob boa iluminação todos os dias ajuda a pegar problemas no início. Se notar qualquer opacidade mancha ou vermelhidão localizada corra para o veterinário mesmo que ele esteja comendo e brincando normalmente.
Tratamentos e cuidados essenciais em casa
O sucesso do tratamento oftalmológico depende 50% do veterinário e 50% de você em casa. A consistência é a chave. Colírios precisam ser aplicados nos horários exatos. Se o intervalo é de 4 horas é porque o efeito da droga dura esse tempo. Atrasar ou pular doses permite que bactérias se multipliquem novamente ou que a pressão do olho suba.
A limpeza deve ser feita com soro fisiológico ou produtos específicos para limpeza ocular veterinária. Evite água boricada ou receitas caseiras com sal e chá. Use gaze ou discos de algodão que não soltem fiapos. Limpe sempre do canto interno para o externo com delicadeza. Nunca esfregue o globo ocular diretamente. E o colar elizabetano (o famoso “cone da vergonha”) é inegociável em casos de úlceras ou pós-operatório. Um segundo de coceira pode destruir uma cirurgia complexa.
Comparativo de Lubrificantes Oftálmicos Veterinários
Para te ajudar a entender as opções que prescrevemos para manutenção e proteção (não para tratamento de infecções) montei este comparativo de produtos comuns no mercado. Lembre-se que apenas o veterinário pode indicar o ideal para o caso do seu pet.
| Característica | Lubrificante em Gel (Ácido Hialurônico) | Lubrificante em Gotas (Carboximetilcelulose) | Pomada Oftálmica (Vitamina A / Lanolina) |
| Exemplo de Tipo | Tipo Hylo-Gel ou Optivet | Tipo Lacri ou Fresh Tears | Tipo Epitezan ou Keravit |
| Viscosidade | Alta (Gel fluido). | Baixa (Líquido aquoso). | Muito Alta (Pasta oleosa). |
| Duração no olho | Média/Longa (permanece mais tempo). | Curta (evapora rápido). | Longa (cria barreira física). |
| Indicação Principal | Olho seco moderado a severo, proteção em cirurgias. | Olho seco leve, limpeza, alívio rápido. | Proteção noturna, úlceras superficiais, proteção intensa. |
| Facilidade de Uso | Fácil, mas pode formar crostas nos cílios. | Muito fácil, espalha rápido. | Difícil aplicar, borra a visão temporariamente. |
| Frequência Típica | 3 a 4 vezes ao dia. | 4 a 6 vezes ao dia ou mais. | 1 a 2 vezes ao dia (geralmente à noite). |
Ao notar qualquer vermelhidão no olho do seu cão respire fundo e observe os outros sinais. Mas não espere “melhorar sozinho”. Olhos não têm tempo a perder. O diagnóstico precoce salva a visão e poupa seu amigo de dores silenciosas.

