Inverno: Protocolos Veterinários para Proteger seu Cão e Gato do Frio
Olá, tudo bem com você e com o seu pet? Como veterinária, vejo todos os anos as mesmas dúvidas surgirem no consultório quando os termômetros começam a baixar. É muito comum os tutores acharem que, só porque cães e gatos têm pelos, eles estão automaticamente protegidos contra qualquer temperatura. A verdade clínica é bem diferente e exige nossa atenção para evitar que o frio se transforme em patologias graves.
Eu sempre digo durante as consultas que o inverno não traz apenas o desconforto térmico, mas também uma série de desafios fisiológicos para o organismo dos nossos animais. Não se trata apenas de colocar uma roupa bonitinha para tirar foto, mas de entender como o corpo deles reage ao ambiente e o que podemos fazer para blindar a imunidade deles. A prevenção é sempre o tratamento mais barato e eficiente que existe na medicina veterinária.
Neste artigo, vou conversar com você como se estivéssemos no meu consultório, explicando os “porquês” de cada cuidado. Vamos deixar de lado o “achismo” e focar na saúde baseada em evidências, garantindo que seu melhor amigo passe por essa estação não apenas quentinho, mas saudável e livre de dores.
A Fisiologia da Termorregulação Animal
Mecanismos naturais de conservação de calor
Você já parou para observar como o corpo do seu animal tenta se defender do frio antes mesmo de você perceber? O organismo dos cães e gatos possui um sistema complexo chamado termorregulação, controlado pelo hipotálamo no cérebro. Quando a temperatura externa cai, o corpo inicia uma vasoconstrição periférica. Isso significa que os vasos sanguíneos das patas, orelhas e cauda se contraem para manter o sangue quente circulando nos órgãos vitais, como coração e pulmões. É por isso que as pontinhas das orelhas deles ficam geladas tão rápido.
Além da parte vascular, existe o mecanismo de piloereção, que é quando os pelos ficam arrepiados. Na natureza, isso serve para criar uma camada de ar isolante entre a pele e o ambiente frio, retendo o calor corporal. No entanto, para nossos animais domésticos, especialmente aqueles que vivem dentro de casa ou têm pelagem curta, esse mecanismo natural muitas vezes não é suficiente para manter a temperatura corpórea ideal, que gira em torno de 38,5°C a 39,2°C.
Esse esforço fisiológico para manter o calor consome muita energia metabólica. Se o animal precisa gastar toda a sua reserva energética apenas para não congelar, sobra menos energia para o sistema imunológico combater vírus e bactérias. Por isso, entender essa fisiologia é o primeiro passo para compreender por que um animal exposto ao frio constante adoece com mais facilidade do que um animal protegido.
A barreira cutânea e a função da pelagem
A pele e o pelo são a primeira linha de defesa do seu pet, mas nem todas as pelagens funcionam da mesma forma. Cães com subpelo denso, como Huskies ou Pastores Alemães, possuem uma “jaqueta térmica” natural dupla. Já raças como o Pinscher, o Galgo ou o Boxer, e gatos como o Sphynx ou o Rex, têm pouca ou nenhuma proteção natural. Para esses animais, o frio é sentido na pele quase da mesma forma que nós humanos sentimos quando estamos sem casaco.
A integridade da barreira cutânea também sofre no inverno. O ar mais seco e o uso excessivo de aquecedores podem ressecar a derme, causando descamação e prurido, que é aquela coceira chata. Quando a pele resseca, ela perde sua elasticidade e a capacidade de proteção contra agentes externos, abrindo portas para infecções fúngicas e bacterianas oportunistas que se aproveitam da baixa imunidade local.
É fundamental avaliar a condição da pelagem do seu animal. Um pelo saudável e brilhante retém melhor o calor do que um pelo opaco e quebradiço. Animais que sofrem de problemas dermatológicos crônicos precisam de atenção redobrada, pois a pele inflamada perde a capacidade de termorregulação eficiente, tornando-os muito mais suscetíveis às variações bruscas de temperatura.
Riscos da falha na termorregulação
Quando os mecanismos de defesa falham e o animal perde calor mais rápido do que consegue produzir, entramos em um estado de risco clínico. O choque térmico é um perigo real, principalmente para animais que ficam dentro de casa no aquecedor e saem abruptamente para o quintal frio para fazer as necessidades. Essa mudança brusca pode causar uma queda rápida na imunidade respiratória.
A falha na termorregulação pode levar à hipotermia, que não é apenas “sentir frio”, mas uma condição médica onde a temperatura central cai abaixo do normal, comprometendo as funções metabólicas e enzimáticas. Em casos severos, isso pode levar a arritmias cardíacas e depressão do sistema nervoso central. Não é exagero dizer que o frio intenso, sem proteção adequada, pode ser fatal.
Por isso, a sua intervenção como tutor é vital. Você precisa atuar como o regulador térmico externo do seu animal quando o corpo dele não dá conta. Isso envolve monitorar o ambiente e evitar situações onde o sistema termorregulador dele seja sobrecarregado. Não espere ele tremer para agir; a prevenção deve começar assim que você sente a necessidade de colocar um casaco.
Identificando Sinais Clínicos de Hipotermia
Alterações posturais e comportamentais
Como veterinária, noto que muitos tutores demoram a perceber que o pet está com frio porque esperam ver o animal tremendo. Mas os sinais começam muito antes disso. O primeiro indicativo é a mudança de postura: o animal tende a se encolher, fazendo um “bolinho”, escondendo o focinho embaixo da cauda ou das patas. Essa é uma tentativa física de diminuir a superfície de contato com o ar frio e preservar o calor visceral.
Outro sinal comportamental importante é a letargia ou a relutância em se mover. Se o seu cão, que normalmente adora passear, chega na porta, sente o vento e volta para a cama, ele não está sendo preguiçoso; ele está lhe dizendo que o ambiente está hostil para ele. Gatos tendem a buscar lugares altos, como cima de geladeiras ou armários, pois o ar quente sobe, ou procuram fontes de calor perigosas, como motores de carro ou atrás de eletrônicos.
A ansiedade também pode ser um sintoma. Alguns animais ficam inquietos, choramingando ou arranhando portas para entrar em casa. Se você notar que seu pet está buscando contato físico excessivo, pedindo colo mais do que o normal ou tentando subir na sua cama no meio da noite, é muito provável que ele esteja buscando sua temperatura corporal para se aquecer.
Sinais vitais e perfusão periférica
Se você quiser fazer uma avaliação mais técnica em casa, pode verificar a perfusão periférica e as extremidades. Toque as pontas das orelhas, as almofadinhas das patas (coxins) e a ponta do rabo. Se estiverem gelados ao toque, é um sinal de que a circulação sanguínea foi desviada para o centro do corpo. Em animais de pele clara, você pode notar uma palidez nas gengivas ou na parte interna das orelhas devido à vasoconstrição.
A respiração também muda. No frio, a frequência respiratória tende a diminuir levemente e o animal para de ofegar. Se a respiração ficar muito lenta e superficial, acompanhada de dificuldade para acordar o animal, isso pode ser um sinal de hipotermia moderada a grave. Nesse ponto, o metabolismo está desacelerando perigosamente para tentar conservar o pouco de energia que resta.
O tempo de preenchimento capilar (TPC) é outro teste simples que ensino aos meus clientes. Pressione levemente a gengiva do animal até ficar branca e solte. A cor rosada deve voltar em menos de 2 segundos. Se demorar mais que isso e o animal estiver frio, a circulação está comprometida. Isso é um sinal de alerta que exige aquecimento imediato e gradual.
Quando a tremedeira é uma emergência
Os tremores musculares são a forma do corpo gerar calor através da contração muscular rápida. Se o seu pet está tremendo, ele já está em um estágio onde a conservação passiva de calor falhou e ele está gastando muita energia para se aquecer. Em cães de pelo curto, isso é visível rapidamente. Em gatos, os tremores são menos comuns e, quando aparecem, indicam um quadro mais grave de desconforto térmico.
A tremedeira se torna uma emergência médica quando é acompanhada de rigidez muscular ou quando o animal para de tremer subitamente sem ter sido aquecido. Parar de tremer no frio intenso não é bom sinal; significa que as reservas de glicogênio muscular acabaram e o corpo desistiu de lutar contra o frio. Isso precede o colapso.
Se o animal apresentar tremores intensos, pupilas dilatadas e confusão mental (parece não reconhecer o dono ou o ambiente), corra para o hospital veterinário. O aquecimento deve ser feito com cobertores e bolsas de água morna (nunca fervendo, para evitar queimaduras) durante o trajeto. Jamais coloque o animal em água quente de uma vez, pois isso pode causar choque circulatório.
Doenças Sazonais e Profilaxia
O complexo respiratório canino e felino
Assim como nós pegamos gripe no inverno, os animais também sofrem com infecções respiratórias. Nos cães, temos a Traqueobronquite Infecciosa Canina, popularmente conhecida como “Tosse dos Canis”. Ela é causada por uma combinação de vírus (como a Parainfluenza) e bactérias (como a Bordetella). O ar frio e seco resseca a mucosa da traqueia, removendo o muco protetor e os cílios que filtram o ar, facilitando a entrada desses patógenos.
Nos gatos, o vilão é o Complexo Respiratório Felino, geralmente causado pelo Herpesvírus ou Calicivírus. Gatos com rinotraqueíte apresentam muitos espirros, secreção nasal e ocular, e muitas vezes param de comer porque perdem o olfato. Como gatos só comem o que cheiram, uma simples gripe pode levar um felino à desnutrição e desidratação severa em poucos dias, exigindo internamento.
A transmissão dessas doenças é muito rápida em parques, creches e hotéis. Basta um espirro ou o contato focinho com focinho. No consultório, o sintoma clássico que os tutores relatam é “parece que ele tem um osso entalado na garganta”, que na verdade é uma tosse seca e alta, típica da inflamação traqueal causada pelo frio e pelos agentes infecciosos.
O agravamento de dermatites no inverno
Muita gente acha que problemas de pele são exclusivos do verão, mas o inverno traz desafios específicos. A umidade relativa do ar baixa pode causar dermatite atópica por ressecamento, piorando quadros alérgicos. Além disso, o uso constante de roupas sem a devida higiene ou troca frequente cria um microambiente úmido e quente em contato com a pele, perfeito para a proliferação de fungos e bactérias.
Animais com dobras de pele, como Pugs e Buldogs, sofrem mais se não forem bem secos após o banho ou se ficarem com roupas úmidas. A falta de ventilação na pele abafada por tecidos sintéticos pode levar a piodermites (infecções bacterianas com pus) que são dolorosas e exigem tratamento com antibióticos.
Outro ponto é que, no frio, tendemos a espaçar a aplicação de antipulgas e carrapatos, achando que eles somem no inverno. Isso é um mito perigoso. As pulgas adoram o ambiente interno aquecido das nossas casas e a pelagem densa de inverno dos animais. A Dermatite Alérgica à Picada de Pulga (DAPP) continua sendo uma das maiores causas de coceira no consultório durante os meses frios.
Protocolos vacinais específicos da estação
A melhor notícia é que a maioria dessas doenças respiratórias é prevenível. Existem vacinas específicas para a “Gripe Canina” (injetáveis, orais ou intranasais) que protegem contra a Bordetella e a Parainfluenza. Eu recomendo fortemente que essa vacina seja aplicada no outono, para que, quando o inverno rigoroso chegar, o sistema imune do seu cão já esteja com os anticorpos em níveis elevados.
Para os gatos, as vacinas quíntupla ou quádrupla felina cobrem os principais vírus respiratórios. Manter a carteirinha em dia é essencial, especialmente para gatos que têm acesso à rua ou que convivem com outros felinos. Um gato vacinado, mesmo que entre em contato com o vírus, terá sintomas muito mais leves do que um não vacinado.
Não ignore a vacinação só porque está frio e você não quer sair de casa. Muitas clínicas oferecem atendimento domiciliar. O custo de tratar uma pneumonia decorrente de uma gripe mal curada é infinitamente superior ao valor de uma dose de vacina, sem contar o sofrimento respiratório que poupamos ao animal.
Manejo da Dor Crônica e Osteoartrose
A relação entre baixa temperatura e dor articular
Você já ouviu algum idoso reclamar que o joelho dói quando vai chover ou esfriar? Com os animais acontece exatamente a mesma coisa. A baixa temperatura causa uma contração na musculatura ao redor das articulações e altera a viscosidade do líquido sinovial, que é o “óleo” que lubrifica as juntas. Isso faz com que o atrito aumente e a articulação fique mais rígida.
Pacientes com artrose, displasia coxofemoral ou problemas de coluna sofrem muito mais no inverno. O frio diminui a circulação sanguínea nas extremidades e nas articulações, o que reduz a oxigenação e a remoção de metabólitos inflamatórios da região afetada. O resultado é um aumento significativo na percepção da dor crônica.
Muitos tutores acham que o animal está apenas “mais calmo” ou dormindo mais por causa do clima aconchegante, quando na verdade o animal está em repouso absoluto para evitar a dor do movimento. É crucial diferenciar preguiça de incapacidade funcional causada por dor agudizada pelo frio.
Sinais sutis de desconforto ortopédico
Animais são mestres em esconder dor. Eles não vão chorar ou ganir a menos que a dor seja insuportável. No dia a dia, você deve observar sinais sutis: dificuldade para se levantar depois de muito tempo deitado (aquela “travada” inicial), relutância em subir no sofá ou no carro, ou lamber excessivamente uma articulação específica, como o punho ou o joelho.
Outro sinal é a mudança na forma de andar. O animal pode dar passos mais curtos, arrastar levemente as unhas no chão ou mancar apenas nos primeiros minutos da caminhada matinal fria. A agressividade súbita ao ser tocado em certas partes do corpo ou ao ser pego no colo também pode ser um indicativo de que aquela região está sensível.
Em gatos, a dor articular se manifesta pela falta de higiene (o gato para de se lamber porque dói a coluna para virar) e pelo fato de pararem de pular em lugares altos. Se o seu gato idoso parou de subir na janela e agora só fica no chão, ele provavelmente está com dor articular agravada pelo frio.
Medidas ambientais para conforto articular
O tratamento medicamentoso com anti-inflamatórios e analgésicos deve ser prescrito pelo seu veterinário, mas o manejo ambiental é responsabilidade sua. Evite que o animal deite diretamente no chão frio ou em pisos de cerâmica. Tapetes, estrados de madeira ou camas elevadas são essenciais para isolamento térmico.
O uso de roupas também ajuda aqui, não só pelo frio sistêmico, mas para manter a musculatura da coluna e dos ombros aquecida. Existem no mercado colchonetes térmicos seguros para pets que mantêm uma temperatura agradável, ajudando no relaxamento muscular e aliviando a dor articular.
Fisioterapia e acupuntura são excelentes aliados no inverno. Além disso, manter as unhas aparadas evita que o animal escorregue em pisos lisos, o que forçaria ainda mais as articulações doloridas. Pequenos ajustes na casa, como rampas para subir na cama, fazem toda a diferença na qualidade de vida do animal artrítico no inverno.
Cuidados Especiais com Grupos de Risco
Neonatos e pediatria: a imaturidade térmica
Filhotes recém-nascidos e animais muito jovens são extremamente vulneráveis. Nas primeiras semanas de vida, o sistema de termorregulação deles é imaturo; eles não conseguem tremer para gerar calor e dependem quase 100% do calor da mãe e dos irmãos. Se separados da mãe ou expostos ao frio, a temperatura corporal cai drasticamente, levando a uma parada na digestão e morte rápida.
Para filhotes que já foram desmamados mas ainda são bebês, o risco continua alto. Eles têm pouca gordura corporal e uma superfície corporal grande em relação ao peso, o que faz com que percam calor muito rápido. Além disso, o sistema imunológico ainda está em formação. Uma exposição ao frio pode abrir portas para viroses graves como a Cinomose ou a Parvovirose.
O protocolo para filhotes no inverno é rigoroso: nada de banhos em casa se não for estritamente necessário (e se for, secagem perfeita), evitar passeios em horários de vento frio ou garoa, e garantir um ninho sempre aquecido. O uso de roupinhas aqui não é luxo, é uma necessidade médica para a preservação da homeostase.
Geriatria: metabolismo lento e perda de massa magra
Os idosos estão na outra ponta da vulnerabilidade. Com o envelhecimento, o metabolismo basal desacelera, ou seja, o “motor interno” do animal gera menos calor. Além disso, animais idosos sofrem de sarcopenia, que é a perda de massa muscular. O músculo é um importante gerador e reservatório de calor; sem ele, o animal esfria “até os ossos”.
Muitos idosos também têm doenças crônicas que comprometem a circulação, dificultando a chegada de sangue quente às extremidades. Eles sentem o frio de forma mais intensa e dolorosa devido às articulações desgastadas. A percepção cognitiva também pode diminuir, fazendo com que o animal idoso, às vezes, não perceba que está ficando com frio e não procure abrigo ativamente.
Para os velhinhos, o cuidado envolve aquecimento ativo (camas térmicas, roupas confortáveis que não limitem o movimento restrito deles) e uma dieta adequada para manter o peso e a massa muscular, sem sobrecarregar os órgãos. O check-up de inverno para o paciente geriátrico é fundamental para ajustar medicações de dor.
Pacientes nefropatas e cardiopatas
Animais com doença renal crônica (nefropatas) ou problemas cardíacos (cardiopatas) exigem atenção triplicada. O frio causa vasoconstrição, o que aumenta a pressão arterial. Para um animal que já tem hipertensão ou o coração fraco, esse aumento súbito da pressão pode descompensar o quadro clínico, levando a crises renais ou edema pulmonar.
Os nefropatas costumam ser animais emagrecidos e desidratados cronicamente, o que anula a proteção térmica da gordura. Eles sentem muito frio. Além disso, eles urinam muito. Se o local onde eles fazem xixi for fora de casa e estiver muito frio, eles podem “segurar” a urina para não sair, o que é péssimo para os rins e bexiga, ou farão em locais inapropriados dentro de casa.
Facilite a vida desses pacientes. Traga a caixa de areia ou o tapete higiênico para uma área interna e aquecida. Mantenha a hidratação rigorosa, oferecendo água levemente amornada se necessário, pois água muito gelada pode desencorajar o consumo em dias frios, agravando a doença renal.
Nutrição e Hidratação Estratégica
Ajuste calórico versus risco de obesidade
Existe um mito de que devemos dar muito mais comida no inverno. A teoria é que, como o animal gasta energia para se aquecer, ele precisa repor. Isso é verdade para animais que vivem fora de casa, em quintais ou sítios. Para esses, um aumento de 15% a 20% nas calorias pode ser necessário sob orientação veterinária.
Porém, para o cão e gato de apartamento, que passam o dia no sofá e saem menos para passear por causa do frio e da chuva, a realidade é oposta. O gasto energético diminui pela falta de atividade física. Se aumentarmos a comida, o resultado será obesidade. E o excesso de peso é terrível para as articulações que já doem no frio.
O ideal é manter a quantidade de ração ou, se notar ganho de peso, introduzir brinquedos interativos e “puzzles” de comida dentro de casa para estimular o gasto calórico mental e físico sem precisar sair na rua. A qualidade da proteína e da gordura na ração é mais importante que a quantidade bruta.
O desafio da ingestão hídrica em gatos
Este é um dos pontos mais críticos do inverno: a água. Cães e, principalmente, gatos, tendem a beber muito menos água quando está frio. Para os gatos, isso é uma bomba relógio para a formação de cálculos urinários (pedras) e crises de obstrução uretral, que são emergências gravíssimas.
A água gelada na vasilha de inox ou cerâmica fica ainda mais fria no inverno, tornando-se pouco atrativa. Uma estratégia eficaz é oferecer alimentos úmidos (sachês ou latas) levemente aquecidos (pode adicionar um pouco de água morna ao patê). Isso aumenta a ingestão hídrica e aquece o animal, além de ser mais palatável pois libera mais aroma.
Espalhe mais potes de água pela casa. Se você tem fontes de água corrente, verifique se a água não está congelante. Estimular o consumo de líquidos no inverno é a principal medida profilática para evitar doenças do trato urinário inferior.
Suplementação e nutracêuticos de inverno
O inverno é o momento ideal para conversar com seu veterinário sobre suplementação preventiva. Ácidos graxos essenciais, como Ômega 3, são excelentes anti-inflamatórios naturais que ajudam tanto na saúde da pele e pelagem (evitando o ressecamento) quanto na lubrificação das articulações doloridas.
Existem também nutracêuticos voltados para a imunidade, contendo beta-glucanas, vitaminas e minerais que ajudam a deixar o sistema de defesa em alerta contra as viroses respiratórias. Probióticos também são bem-vindos, pois a saúde intestinal reflete diretamente na imunidade sistêmica.
Lembre-se: suplemento não é petisco. Deve ser dado na dose correta e com indicação profissional. O excesso de vitaminas pode sobrecarregar o fígado e os rins, causando o efeito oposto ao desejado.
Higiene e Ambiente
A frequência ideal de banhos e a secagem
A dúvida campeã no consultório: “Pode dar banho no frio?”. Poder, pode. Mas deve-se reduzir a frequência drasticamente. Banhos removem a oleosidade natural da pele, que serve como proteção térmica e barreira contra umidade. Se o seu cão toma banho semanal, no inverno tente passar para quinzenal ou mensal, mantendo a higiene com escovação e lencinhos ou banho a seco.
Se o banho for inevitável, a regra de ouro é a secagem. O subpelo úmido no inverno é um convite para fungos e causa uma queda brusca na temperatura corporal. Use secadores potentes (cuidado com a temperatura para não queimar) e certifique-se de que a pele, e não apenas a ponta do pelo, está seca.
Para gatos, evite banhos ao máximo, a menos que seja terapêutico. O estresse do banho somado ao frio pode baixar muito a imunidade do felino. A escovação frequente ajuda a remover pelos mortos e ativa a circulação sanguínea, ajudando a aquecer o animal sem precisar de água.
Roupas: necessidade fisiológica ou estética
Muitas pessoas criticam o uso de roupas em pets, achando que é humanização excessiva. Do ponto de vista veterinário, para cães de pelo curto, idosos, magros ou com pouca gordura, a roupa é um equipamento de proteção individual. Ela substitui a camada de gordura e pelo que eles não têm.
No entanto, a roupa precisa ser funcional. Ela não pode prender as axilas, não pode impedir o movimento das patas e não pode atrapalhar o animal a fazer as necessidades. Roupas de lã podem causar alergia em alguns animais; prefira tecidos de algodão ou soft antialérgico. E o mais importante: tire a roupa diariamente para escovar o pelo e verificar se não há nós ou feridas escondidas embaixo do tecido.
Gatos geralmente detestam roupas porque elas afetam o sensor de equilíbrio e os pelos táteis do corpo. Se o gato “trava” e cai de lado quando você põe roupa, não force. Respeite a natureza dele e forneça calor de outras formas, como tocas e camas iglu.
Preparando a casa para o conforto térmico
Sua casa deve ser o refúgio seguro. O chão é a parte mais fria da casa. Eleve a cama do seu pet. Colocar um papelão ou um tapete de yoga embaixo da caminha já ajuda a isolar a friagem que vem do piso. Camas tipo “iglu” ou tocas são ótimas porque retêm o calor que o próprio corpo do animal gera.
Cuidado com aquecedores elétricos. Animais podem se deitar muito perto e sofrer queimaduras térmicas sem perceber, ou derrubar o aparelho e causar incêndios. O ar condicionado no modo quente resseca muito o ar, então use sempre um umidificador ou uma toalha molhada no ambiente para proteger as vias aéreas do seu pet.
Evite correntes de ar. Sabe aquela fresta embaixo da porta ou a janela mal vedada onde o pet gosta de ficar olhando a rua? Aquilo é um canal direto para problemas respiratórios e dores de ouvido (otites). Vede essas entradas de ar ou mude o local de descanso do seu amigo para uma área mais protegida da casa.
Quadro Comparativo de Produtos
Para te ajudar a escolher a melhor proteção física, montei um comparativo entre as opções mais comuns que vemos nas lojas:
| Característica | Roupa de Lã / Tricô | Roupa de Soft / Polar | Capa Impermeável com Forro |
| Isolamento Térmico | Médio. O vento passa pela trama. | Alto. Retém bem o calor corporal. | Alto. Bloqueia vento e umidade. |
| Conforto / Mobilidade | Alto, se for de boa qualidade. Molda-se ao corpo. | Alto. Tecido leve e flexível. | Médio. Pode ser mais rígida e fazer barulho ao andar. |
| Ideal para | Uso interno, dias secos e frios. | Uso interno, dormir, dias muito frios. | Passeios externos, dias de chuva ou vento forte. |
| Ponto de Atenção | Pode pinicar, causar nós no pelo longo e demora a secar se molhar. | Pode gerar eletricidade estática em pelos longos. | Não deve ser usada o tempo todo dentro de casa (abafa demais). |
Espero que essas orientações tenham clareado suas dúvidas sobre como cuidar do seu companheiro neste inverno. Lembre-se: cada animal é único. O que funciona para o Golden Retriever do vizinho pode não funcionar para o seu Pinscher. Observe seu animal, toque nele, sinta a temperatura das orelhas e, na dúvida, procure seu veterinário de confiança.

