Você provavelmente já presenciou essa cena clássica na sua casa. Seu gato está investigando algo novo, talvez um sapato que você acabou de tirar ou um canto do sofá, e de repente ele para. Ele levanta a cabeça, franze o nariz, levanta o lábio superior mostrando os dentes da frente e fica com a boca semiaberta, com o olhar perdido no horizonte. Parece uma expressão de nojo absoluto, um sorriso sarcástico ou até mesmo que ele “travou” por alguns segundos.
No consultório, ouço muitos tutores descreverem isso como “a cara de cheiro ruim” ou perguntarem se o gato está sentindo dor de dente. Mas, como veterinário, posso garantir a você: essa careta não é julgamento sobre a sua higiene, nem um problema odontológico imediato. O que você está vendo é uma peça fascinante da engenharia biológica felina em ação.
Esse comportamento tem um nome científico: Reflexo de Flehmen. É uma ferramenta sensorial avançada que permite ao seu gato acessar uma camada de informações químicas que nós, humanos, sequer podemos imaginar. É como se ele estivesse alternando de uma “internet discada” (o olfato normal) para uma “fibra óptica” de alta velocidade para analisar dados químicos complexos do ambiente.
1. O Básico: Por que seu gato faz essa careta engraçada?
A definição do comportamento
O termo “Flehmen” vem do alemão e significa algo como “mostrar os dentes” ou “curvar o lábio superior”. Quando seu gato faz isso, ele não está apenas cheirando o ar da maneira convencional. Ele está realizando um movimento muscular involuntário e coordenado para fechar fisicamente as narinas normais e abrir dutos específicos localizados logo atrás dos dentes incisivos superiores.
Ao fazer essa “careta”, ele cria uma pressão negativa que suga as partículas de odor para dentro da boca, em direção a um órgão sensorial especializado. Diferente do olfato comum, que processa aromas voláteis (como o cheiro de café ou perfume), o Reflexo de Flehmen é focado em captar compostos mais pesados, que muitas vezes não têm cheiro algum para nós. É uma forma de “saborear o cheiro” para obter uma leitura química precisa.
Para você ter uma ideia da importância disso, imagine que o olfato normal diz ao gato “há algo aqui”. O Reflexo de Flehmen, por sua vez, diz “quem esteve aqui, há quanto tempo, qual o sexo, se está saudável e se está pronto para namorar”. É uma biópsia química do ar.
Não é nojo, é análise profunda
É muito comum confundirmos a expressão facial do Flehmen com repulsa humana. Franzir o nariz e abrir a boca é o que fazemos quando sentimos o cheiro de leite azedo ou lixo. No entanto, para o seu felino, essa expressão indica intenso interesse e foco. Ele está, literalmente, bloqueando outras distrações sensoriais para processar uma informação vital.
Quando seu gato faz isso após cheirar o bumbum de outro gato ou uma marcação de urina, ele não está pensando “que nojo!”. Pelo contrário, ele está fascinado. O cérebro dele está recebendo um download massivo de dados sobre a identidade e o estado hormonal do outro animal. É uma investigação social, não uma crítica gastronômica.
Portanto, da próxima vez que ele cheirar sua meia suja de academia e fizer essa cara, não se ofenda. Ele está apenas tentando entender por onde você andou e quais “mensagens” químicas você trouxe da rua em seus sapatos ou roupas. Para ele, você é um livro aberto de odores interessantes que precisam ser decodificados.
Uma herança selvagem
O Reflexo de Flehmen não é exclusivo do seu gatinho doméstico. Leões, tigres e leopardos fazem exatamente a mesma coisa na natureza. É uma ferramenta de sobrevivência crucial que foi mantida ao longo de milhões de anos de evolução felina. Na selva, saber quem passou pelo seu território sem precisar ver o intruso é uma questão de vida ou morte.
Além dos felinos, cavalos, girafas e até tapires realizam esse movimento. No entanto, os gatos aperfeiçoaram esse mecanismo para a caça solitária e a comunicação territorial. Diferente dos cães, que são matilha e confiam muito na linguagem corporal e latidos, os gatos na natureza são frequentemente solitários e noturnos, dependendo pesadamente de “bilhetes químicos” deixados para trás.
Seu gato, mesmo comendo ração super premium e dormindo no sofá, ainda carrega esse software ancestral. Quando ele analisa uma mancha no tapete com o Reflexo de Flehmen, ele está acessando os mesmos instintos que um tigre siberiano usa para encontrar uma parceira na vastidão da taiga.
2. A Anatomia Oculta: O Órgão de Jacobson
Localização exata e conexão
O grande segredo por trás dessa careta está em uma estrutura anatômica que nós, humanos, possuímos apenas de forma vestigial (sem função), mas que nos gatos é superpotente: o Órgão Vomeronasal, também conhecido como Órgão de Jacobson.
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Este órgão é composto por dois pequenos sacos cheios de fluido localizados no céu da boca (palato duro), logo atrás dos dentes da frente. Existem pequenos dutos (canais nasopalatinos) que conectam a cavidade oral a esses sacos. Se você olhar com muita atenção (e se seu gato for paciente o suficiente para deixar você abrir a boca dele), poderá ver duas pequenas papilas ou “buraquinhos” atrás dos incisivos superiores. É ali que a mágica acontece.
O Órgão de Jacobson é revestido por células sensoriais receptoras que são diferentes das encontradas no nariz. Enquanto o nariz é ótimo para detectar odores gerais à distância, o Órgão de Jacobson é projetado para detecção de curto alcance de moléculas grandes, não voláteis, que precisam ser “bombeadas” para dentro dele.
Como funciona a “bomba” de sucção
A mecânica do Flehmen é fascinante. Quando o gato levanta o lábio e abre a boca, ele não está apenas expondo os dutos; ele está ativamente manipulando a pressão do ar. O movimento facial fecha as narinas normais, forçando o ar a passar pela boca e entrar nos dutos nasopalatinos.
Pense nisso como usar um canudinho. O gato suga o ar carregado de feromônios para dentro desses dutos. Uma vez lá dentro, as moléculas químicas se dissolvem no fluido que preenche o Órgão de Jacobson. É essa dissolução que permite que as células receptoras capturem a informação química e a traduzam em impulsos elétricos.
É por isso que o gato parece “congelar” por alguns segundos. O processo de sucção, dissolução e transmissão neural leva um momento para acontecer. Se ele se mexer muito ou respirar normalmente, o fluxo de ar se quebra e a amostra química se perde. É um momento de pura concentração fisiológica.
A conexão direta com o cérebro emocional
Aqui está o ponto que considero mais incrível como veterinário: a “fiação” neurológica. Os nervos do olfato comum vão para o córtex olfativo, onde o gato processa conscientemente “isso é cheiro de atum”. Mas os nervos do Órgão de Jacobson seguem um caminho diferente.
Eles enviam sinais diretamente para a amígdala e para o hipotálamo. Essas são áreas do cérebro responsáveis pelas respostas emocionais, instintos sexuais, agressividade e comportamento alimentar. Não passa pelo filtro do pensamento racional ou consciente da mesma forma que outros sentidos.
Isso significa que a reação a um feromônio captado pelo Flehmen é visceral e imediata. O gato não “pensa” sobre o cheiro; ele “sente” o cheiro em um nível hormonal e emocional. Isso explica por que um gato pode mudar de comportamento instantaneamente — ficando agressivo ou sexualmente excitado — logo após realizar o Flehmen. A informação química atingiu o centro de comando emocional do cérebro dele sem escalas.
3. Os Detetives Químicos: O que eles estão investigando?
O romance está no ar (hormônios sexuais)
A função primária e mais poderosa do Reflexo de Flehmen na natureza é a reprodução. Para um gato macho não castrado, o mundo é um mapa de oportunidades de acasalamento, desenhado por odores invisíveis. A urina de uma fêmea contém feromônios específicos que indicam não apenas quem ela é, mas exatamente em que ponto do ciclo estral (cio) ela está.
Quando um macho encontra uma marcação de urina e faz o Flehmen, ele está calculando a “janela de oportunidade”. O Órgão de Jacobson consegue detectar frações mínimas de hormônios que dizem se a fêmea ovulou, se está receptiva ou se já passou do ponto. Isso economiza energia vital: ele não vai perseguir uma fêmea que não está pronta, evitando brigas desnecessárias e desgaste físico.
Mesmo gatos castrados mantêm esse instinto. Você pode ver seu gato castrado fazendo Flehmen para uma gata da vizinhança. Embora a resposta hormonal de acasalamento não ocorra da mesma forma, o “hardware” de detecção continua ativo e funcional, coletando informações sociais.
Quem passou por aqui? (Território e Segurança)
Gatos são obcecados por controle territorial. Saber quem entrou, saiu ou passou perto do seu domínio é fundamental para a sensação de segurança deles. Os feromônios deixados pelas glândulas faciais (quando eles esfregam a bochecha nas coisas) ou pelas patas contêm uma assinatura única de identidade.
Ao usar o Reflexo de Flehmen em um local onde outro gato se esfregou, seu pet está acessando o “perfil do Facebook” daquele visitante. Ele descobre o sexo, a idade aproximada, a saúde e até o nível de estresse do outro animal. Se o intruso estava com medo ou doente, os feromônios liberados serão diferentes, e seu gato saberá.
Isso é muito comum em casas com múltiplos gatos. Às vezes, um gato sai para ir ao veterinário e, quando volta, o outro gato faz Flehmen e pode até chiar. Por quê? Porque o gato que saiu voltou com “cheiros de hospital” e feromônios de estresse que mascararam seu cheiro familiar. O Flehmen é a tentativa do gato que ficou em casa de “ler” o estranho que acabou de chegar.
Novos objetos e cheiros curiosos
Embora os feromônios sejam o alvo principal, o Reflexo de Flehmen também é ativado por odores fortes e complexos que não são necessariamente biológicos. É aqui que entram as situações engraçadas do dia a dia doméstico que geram tantos vídeos na internet.
Produtos de limpeza com cloro (água sanitária), por exemplo, têm uma estrutura química que, curiosamente, mimetiza certos feromônios felinos. Muitos gatos ficam obcecados pelo cheiro de cândida, rolando no chão e fazendo Flehmen repetidamente. O catnip (erva-de-gato) também desencadeia essa reação, pois a nepetalactona (o óleo da planta) precisa ser analisada profundamente para surtir seu efeito embriagante.
Alimentos com cheiros pungentes, pastas de dente mentoladas e, claro, odores corporais humanos intensos (suor, chulé) também são alvos. Nesses casos, o gato está apenas tentando classificar uma informação química muito densa que o nariz comum não conseguiu decifrar completamente. É a curiosidade científica felina em sua forma mais pura.
4. A Ciência por trás do “Super Olfato” Felino
A diferença biológica entre cheirar e “flehmar”
É vital entender que cheirar e realizar o Flehmen são vias fisiológicas distintas. Quando seu gato cheira sua comida, ele usa o epitélio olfatório principal. As moléculas são voláteis, flutuam no ar e entram pelas narinas durante a respiração normal. É rápido, eficiente e serve para navegação básica e apetite.
O “flehmar” (ato de fazer o Flehmen) é uma interrupção da respiração normal. O gato para de respirar momentaneamente pelo nariz para converter sua boca em uma bomba de vácuo. Estudos mostram que o tipo de molécula captada aqui é muito maior e mais pesada, muitas vezes ligada a proteínas. Essas moléculas não “voam” facilmente pelo ar; elas precisam ser sugadas de uma superfície ou de um ar muito próximo à fonte.
Essa distinção é tão importante que, se você bloquear os dutos do Órgão de Jacobson de um gato experimentalmente (o que não fazemos na clínica, claro, mas sabemos de estudos antigos), o comportamento sexual e social dele é drasticamente afetado, mesmo que o olfato normal esteja intacto. Ele consegue cheirar a comida, mas “esquece” como identificar uma parceira.
A especificidade dos feromônios felinos
Os feromônios são a linguagem secreta dos gatos. Eles são compostos químicos evoluídos especificamente para comunicação intraespécie. O que o seu gato detecta no Flehmen são “mensagens criptografadas” que só outro gato (ou um animal com receptores muito similares) consegue decodificar.
Existem feromônios de apaziguamento (como os liberados pela mãe para os filhotes, que sinteticamente usamos em produtos como Feliway), feromônios de alarme, feromônios sexuais e feromônios territoriais. O Órgão de Jacobson é o decodificador dessa criptografia.
Quando seu gato faz a cara estranha, ele está lendo uma dessas mensagens específicas. Por exemplo, a “felinina” é um aminoácido presente na urina de gatos machos inteiros que, ao degradar, gera aquele cheiro forte característico. O órgão vomeronasal detecta os precursores e derivados desse composto com uma precisão molecular, informando ao seu gato a presença de um rival potencial.
Por que humanos não fazem isso?
Você deve estar se perguntando: “Se isso é tão útil, por que eu não consigo fazer?”. A verdade é que nós temos vestígios do Órgão de Jacobson durante o desenvolvimento fetal, mas ele atrofia e perde a função antes ou logo após o nascimento.
Nossa evolução tomou um caminho diferente. Como primatas, investimos pesadamente na visão (desenvolvendo a capacidade de ver cores para identificar frutas maduras, por exemplo) e na cognição complexa, deixando o olfato e a detecção de feromônios em segundo plano. Perdemos a conexão neural entre o local onde o órgão estaria e o nosso cérebro.
Então, quando você entra em uma sala e sente um “clima pesado”, é uma intuição baseada em linguagem corporal e sinais sutis. Quando seu gato entra na mesma sala, ele literalmente cheira o estresse ou o medo que ficou no ar através de compostos químicos, usando uma ferramenta que nós perdemos há milhões de anos.
5. Observando o Comportamento no Dia a Dia
O teste da “meia suja” e sapatos
Essa é a anedota mais frequente no meu consultório. O tutor chega em casa, tira o tênis depois de um dia longo, o gato vai lá, enfia a cabeça dentro do sapato e… faz a cara. O tutor ri e diz: “Doutor, meu chulé desmaiou o gato”.
Na verdade, sapatos são vetores de informação incríveis. Eles trazem cheiros de grama, de outros animais que pisaram na calçada, de asfalto, de borracha e do seu próprio suor concentrado. Para um gato indoor (que vive dentro de casa), seu sapato é o jornal diário do mundo lá fora.
Ao realizar o Flehmen no seu sapato ou meia, ele está lendo as notícias. Ele está checando se você encontrou outro gato, se esteve em um ambiente seguro. É uma forma de ele se atualizar sobre o ambiente externo sem sair de casa. Portanto, encare isso como um interesse genuíno na sua rotina, e não como uma crítica ao seu odor pessoal.
Interação entre gatos da mesma casa
Se você tem mais de um gato, observe quando eles se cheiram. O cumprimento normal é nariz com nariz. Mas, às vezes, um cheira a região anal do outro e faz o Flehmen. Isso é uma checagem de identidade e status.
Isso acontece muito quando a dinâmica da casa muda. Se um gato ficou doente, a química corporal dele muda. O outro gato vai perceber isso pelo Flehmen antes mesmo de você notar sintomas clínicos. É uma ferramenta diagnóstica entre eles.
Eu sempre recomendo aos meus clientes: observem o Flehmen. Se seus gatos que sempre se deram bem começarem a fazer muito Flehmen um no outro seguido de distanciamento, pode haver algo errado (estresse ou doença) alterando o cheiro de um deles.
Quando se preocupar? O limite entre o normal e a dor
Como veterinário, preciso fazer um alerta importante. O Reflexo de Flehmen é normal, saudável e esperado. O gato faz a careta, segura por alguns segundos e volta ao normal. Porém, existe uma diferença crucial entre o Flehmen e a respiração de boca aberta (dispneia).
Se o seu gato está com a boca aberta, ofegante, com a língua para fora e não para de fazer isso após alguns segundos, isso NÃO é Flehmen. Isso é uma emergência respiratória ou superaquecimento grave. O Flehmen é estático: o gato para, faz a careta e pronto. A dispneia é dinâmica: o peito sobe e desce com força, o gato parece agoniado.
Além disso, se o gato mantém a boca entreaberta o tempo todo, baba ou tem dificuldade para fechar a boca, podemos estar lidando com dor de dente, gengivite severa ou um corpo estranho na boca. O Flehmen é um evento; a dor oral é um estado constante. Conhecer a “cara estranha” normal do seu gato pode salvar a vida dele ao ajudar você a distinguir o que é curiosidade do que é sofrimento.
Comparativo: Entendendo as Reações Orais do Seu Gato
Para garantir que você saiba diferenciar o comportamento normal de possíveis problemas, preparei este quadro comparativo simples.
| Característica | Reflexo de Flehmen | Respiração de Boca Aberta (Dispneia/Calor) | “Chattering” (Vocalização de Caça) |
| O que é? | Análise de feromônios/cheiros. | Dificuldade respiratória ou regulação térmica. | Excitação predatória ao ver uma presa. |
| Aparência | Lábio superior levantado, dentes à mostra, olhar fixo (“congelado”). | Língua para fora, peito movendo-se rápido, expressão de angústia. | Mandíbula batendo rápido, sons curtos (“ek-ek-ek”). |
| Duração | Curta (5 a 30 segundos). | Persistente enquanto durar o esforço ou calor. | Enquanto o gato observar a presa (pássaro/inseto). |
| Som | Silencioso (apenas inalação). | Respiração audível, ofegante. | Ruídos de “clique” com os dentes/vocalização. |
| Ação Necessária | Nenhuma. É comportamento normal. | Veterinário Imediato. É emergência. | Nenhuma. Deixe-o curtir a “caça visual”. |
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Espero que essa conversa tenha tirado o peso da “cara de nojo” do seu gatinho. Entender o Reflexo de Flehmen é entender que seu felino vive em um mundo sensorial muito mais rico e complexo do que o nosso. Ele não está apenas vendo sua casa; ele está lendo a história química de cada objeto e ser vivo que passa por ali.
Da próxima vez que ele fizer aquela careta engraçada para o seu tênis de corrida ou para uma mancha no sofá, aproveite para admirar a natureza selvagem que ainda vive dentro do seu pequeno companheiro de sofá.
E lembre-se: se tiver dúvidas se é uma careta engraçada ou dificuldade respiratória, filme e mande para o seu veterinário. É melhor errar pelo excesso de cuidado do que ignorar um sinal de alerta.

