A “adolescência” canina: A fase mais difícil?
Você provavelmente se lembra de quando trouxe seu filhote para casa. Aquela bolinha de pelos que cheirava a leite, dormia a maior parte do dia e seguia você pela casa como uma sombra adorável. Você fez o dever de casa, ensinou onde fazer o xixi, trabalhou o “senta” e garantiu que ele fosse sociável. Tudo parecia estar indo perfeitamente bem, até que, de repente, tudo mudou. Agora, aquele mesmo cão olha para você quando é chamado e decide, deliberadamente, ignorar sua voz. Ele começou a roer os pés da mesa que ignorou por meses e parece ter uma energia inesgotável que beira o caos.
Bem-vindo à adolescência canina. Quero que você respire fundo e saiba que não está sozinho nessa jornada turbulenta. No consultório, essa é a fase em que mais recebo queixas de tutores desesperados achando que seus cães “quebraram” ou que erraram fundamentalmente na criação. A verdade é muito mais biológica e menos culposa do que você imagina. Seu cão não está fazendo isso de propósito para irritar você ou para dominar sua casa. Ele está passando por uma revolução fisiológica massiva que altera a forma como ele percebe o mundo e processa informações.
Vamos conversar de profissional para tutor, sem rodeios, sobre o que está acontecendo dentro daquele corpo peludo em crescimento. Entender a biologia por trás do comportamento é a chave para manter sua sanidade e garantir que seu cão atravesse essa fase com saúde e equilíbrio. A adolescência canina, que geralmente ocorre entre os 6 e 18 meses dependendo do porte do animal, é o período de maior desenvolvimento neurológico e físico após o nascimento. É uma fase crítica, mas garanto a você que ela passa. Vamos mergulhar nos detalhes para que você saiba exatamente como navegar por essas águas agitadas.
O que realmente acontece no cérebro do seu cão
A tempestade hormonal e a reestruturação neural
O cérebro do seu cão durante a adolescência é um canteiro de obras em plena atividade. Diferente do cérebro adulto, que já possui caminhos neurais bem estabelecidos, o cérebro adolescente está sofrendo um processo chamado “poda sináptica”. Isso significa que o organismo está eliminando conexões neurais que considera pouco utilizadas para tornar o cérebro mais eficiente. Durante esse processo, a comunicação entre diferentes áreas cerebrais pode ficar um pouco confusa. É como se estivessem reformando as estradas principais da cidade e o trânsito tivesse que pegar desvios desconhecidos.
Além da reestruturação física, existe um banho químico acontecendo. Os níveis de hormônios sexuais (testosterona nos machos e estrogênio/progesterona nas fêmeas) começam a subir drasticamente. Esses hormônios não afetam apenas o sistema reprodutivo. Eles têm receptores espalhados por todo o cérebro, especialmente na amígdala, que é o centro de processamento das emoções e do medo. Isso explica por que seu cão pode parecer mais impulsivo, mais reativo e menos racional. O córtex pré-frontal, responsável pelo controle de impulsos e tomada de decisão, é a última área a amadurecer.
Você tem, literalmente, um animal com um motor de Ferrari (corpo forte, hormônios a mil) e freios de bicicleta (córtex pré-frontal imaturo). Essa discrepância biológica é a raiz da maioria dos comportamentos que rotulamos como “difíceis”. Não é desobediência calculada. É uma incapacidade fisiológica momentânea de regular emoções e impulsos com a mesma eficácia que um cão adulto teria. Entender isso muda a forma como olhamos para o “mau comportamento”. Deixamos de ver malícia e passamos a ver uma dificuldade de processamento.
O despertar dos instintos sexuais e territoriais
Com a puberdade, o mundo do seu cão muda de cheiro. O olfato, que já é o sentido primário dos caninos, torna-se uma ferramenta de busca por parceiros e competidores. Para os machos, a testosterona aumenta o desejo de explorar, de marcar território e de investigar odores de outros cães com uma intensidade obsessiva. Aquele passeio tranquilo onde ele andava ao seu lado agora se transforma em uma sequência de paradas a cada poste, pois cada marcação de urina é um “jornal” cheio de notícias sociais que ele precisa ler e responder.
Nas fêmeas, mesmo antes do primeiro cio visível, as mudanças comportamentais são nítidas. Elas podem se tornar mais carentes ou, inversamente, mais distantes e irritadiças. A tolerância com outros cães pode diminuir drasticamente. Aquele “amiguinho” do parque com quem ela brincava desde filhote pode subitamente virar um incômodo, gerando rosnados e correções que você nunca viu antes. Isso faz parte do desenvolvimento da maturidade sexual e da definição de espaço pessoal. O instinto de proteção de recursos e de território começa a aflorar com força.
Você precisa estar atento a essas mudanças para não colocar seu cão em situações que ele ainda não sabe gerenciar. O interesse súbito por fugir de casa ou pular cercas geralmente surge aqui, impulsionado por feromônios que você nem sequer sente, mas que para ele são convites irresistíveis. Não adianta apenas brigar. A gestão do ambiente físico, como reforçar portões e usar guias longas em locais abertos, torna-se uma medida de segurança vital, não apenas uma questão de obediência.
A perda temporária da inibição de mordida e limites
Durante a fase de filhote, passamos muito tempo ensinando a inibição de mordida — aquela regra de que dentes na pele humana não são aceitáveis ou devem ser muito suaves. Na adolescência, com a excitação elevada e o controle de impulsos reduzido, é comum vermos uma regressão nesse aspecto. Durante brincadeiras mais intensas, seu cão pode voltar a usar a boca com mais força, segurar roupas ou pular e “mordiscar” mãos e braços. Isso é fruto da superexcitação, um estado onde o cérebro desliga o racional e age puramente no instinto e na emoção do momento.
Os limites sociais que pareciam claros também ficam turvos. Se ele sabia que não podia subir no sofá, ele vai testar subir novamente. Se ele sabia que tinha que esperar a comida, ele vai tentar avançar no pote. Ele está testando a consistência do ambiente. Na natureza, os animais adolescentes precisam testar suas capacidades físicas e sociais para saber onde se encaixam na hierarquia do grupo e se estão aptos a sobreviver sozinhos. Seu cão está replicando esse comportamento ancestral na sua sala de estar.
Essa fase exige de você uma postura firme, mas calma. Gritar ou punir fisicamente nessas situações de perda de inibição geralmente piora o quadro, aumentando a excitação ou gerando medo. O ideal é remover a atenção ou interromper a brincadeira imediatamente quando os dentes tocam a pele ou os limites são desrespeitados. A mensagem deve ser clara: “a diversão acaba quando você perde o controle”. Repetir isso consistentemente ajuda o cérebro dele a reconectar a regra de causa e efeito que a tempestade hormonal tentou apagar.
Sinais claros de que seu anjo virou um adolescente
A famosa surdez seletiva e a recusa de comandos
Você chama “Rex, vem!”, e o Rex, que vinha correndo há um mês, agora olha para você, avalia a situação, cheira uma grama e continua andando na direção oposta. Esse fenômeno é classicamente conhecido como “surdez seletiva”. Não é que seu cão tenha perdido a audição. O que mudou foi a hierarquia de importância dos estímulos no cérebro dele. Antes, você era o centro do universo. Agora, o ambiente, os cheiros e os outros cães são infinitamente mais recompensadores e interessantes do que o seu chamado.
Essa autonomia recém-descoberta é um sinal de desenvolvimento saudável, embora seja frustrante para nós. O cão está descobrindo que pode tomar decisões próprias e que essas decisões podem levar a recompensas intrínsecas (como o prazer de perseguir um esquilo ou cheirar um rastro). Ele está avaliando o custo-benefício de obedecer a você versus interagir com o ambiente. Se o ambiente paga melhor, o ambiente ganha.
Para combater isso, não adianta repetir o comando dez vezes gritando cada vez mais alto. Isso só ensina ao cão que ele pode ignorar as primeiras nove chamadas. O segredo é voltar alguns passos no treinamento. Use recompensas de alto valor — aquele petisco que ele ama muito ou o brinquedo favorito — para competir com o ambiente. E, crucialmente, não dê comandos que você não pode garantir que serão cumpridos. Se ele está solto no parque e distraído, não chame. Vá até ele e coloque a guia. Preserve o valor da sua palavra.
O retorno do comportamento destrutivo e do tédio
Muitos tutores chegam à minha clínica relatando que o cão destruiu o sofá ou comeu um sapato caro justamente no dia em que ficou sozinho por apenas duas horas. A destruição na adolescência geralmente está ligada a dois fatores: tédio e excesso de energia física acumulada. O corpo do cão cresceu, a musculatura se desenvolveu e a necessidade de gasto calórico aumentou exponencialmente. A caminhada de 20 minutos que cansava o filhote agora serve apenas como aquecimento para o adolescente.
Além da energia física, existe a necessidade de mastigação. A dentição permanente já está completa, mas os dentes estão se acomodando no osso da mandíbula, o que pode causar desconforto. Mais importante ainda, mastigar libera endorfinas e serotonina no cérebro do cão, causando relaxamento. Um cão adolescente ansioso ou entediado vai procurar a forma mais rápida de se autoacalmar, e roer o pé da sua mesa de jantar é uma opção muito acessível e satisfatória para ele.
Você precisa antecipar essa necessidade. O ambiente deve ser “à prova de adolescentes”. Não deixe sapatos ao alcance. Forneça alternativas adequadas e atraentes. Ossos recreativos seguros, brinquedos de nylon duro ou chifres de veado são opções que direcionam esse comportamento natural para itens permitidos. Se você não fornecer um outlet para essa energia destrutiva, ele vai criar um, e garanto que será com o objeto mais caro da sua casa.
Medos repentinos e reatividade a estímulos conhecidos
Outra característica marcante e confusa dessa fase é o “período do medo secundário”. De repente, seu cão pode latir para uma lixeira que está na rua há anos ou se recusar a passar por uma porta específica. Coisas familiares tornam-se subitamente assustadoras. Isso ocorre porque o cérebro está reavaliando os perigos do mundo. Na natureza, um filhote é protegido pelos pais, mas um adolescente precisa aprender a identificar ameaças por conta própria para sobreviver.
Essa reatividade pode se manifestar como latidos excessivos para pessoas na rua, medo de barulhos ou desconfiança de objetos estranhos. É vital que você não force o cão a enfrentar esses medos de forma traumática (“flooding”). Arrastar o cão até a lixeira assustadora só confirma para ele que a situação é horrível e que você não é uma fonte de segurança.
A melhor abordagem é a dessensibilização gradual. Deixe ele observar o objeto assustador de longe, recompense a calma e a curiosidade. Se ele latir ou recuar, aumente a distância. O objetivo é mostrar que o “monstro” não é perigoso. A sua reação dita o tom. Se você ficar tenso ou tentar consolar o cão com voz de pena, você valida o medo. Mantenha-se neutro, confiante e mostre que a vida segue normalmente.
O desafio da regressão no adestramento
Por que ele parece ter esquecido tudo o que aprendeu
A sensação de que seu cão sofreu uma amnésia total é real. Como mencionei sobre a poda sináptica, as vias neurais estão sendo reorganizadas. Comandos que não foram “blindados” (treinados exaustivamente em diversos cenários) podem se perder temporariamente nesse ruído neural. Além disso, a motivação do cão mudou. O que o motivava antes pode não ser suficiente agora.
Não encare isso como uma afronta pessoal. Ele não “esqueceu” de propósito. O acesso àquela informação no arquivo do cérebro está temporariamente bloqueado por outras prioridades biológicas. A paciência é sua maior virtude aqui. Você não precisa ensinar tudo do zero, mas precisa fazer uma “reciclagem”. Volte a praticar comandos básicos em ambientes calmos, dentro de casa, antes de exigir performance na rua cheia de distrações.
Lembre-se que o aprendizado não é linear. Ele tem picos e vales. A adolescência é um grande vale onde a performance cai, mas o aprendizado latente continua acontecendo. Se você mantiver a consistência, quando a tempestade hormonal passar, você terá um cão adulto incrivelmente bem treinado. Se você desistir agora, terá um adulto mal-educado.
A disputa por autonomia e os testes de consistência
Seu cão adolescente está buscando independência. Isso é saudável. Ele quer saber até onde pode ir e o que acontece se ele não seguir as regras. É comum eles testarem você: “Se eu não sentar quando ela mandar, o que acontece? Ela desiste? Ela me dá o petisco mesmo assim?”. Se a resposta for “ela desiste”, ele aprendeu que a persistência dele vence a sua.
Esses testes de consistência são exaustivos. Você pode pedir um “fica” e ele vai se levantar um segundo depois, olhando para você. Se você não o recolocar na posição, o comando “fica” perde o significado. A consistência deve ser absoluta, mas não agressiva. É preto no branco. As regras não mudam porque ele está “chato”. Pelo contrário, as regras são a estrutura que dá segurança a ele nesse momento de caos interno.
Evite entrar em embates físicos ou de força. Você perderá na agilidade e na persistência. Use a gestão de recursos. Você controla a comida, o passeio, a porta aberta, o carinho. Para ter acesso a qualquer uma dessas coisas boas, ele precisa colaborar com você. O “nada na vida é de graça” é uma filosofia excelente para aplicar durante a adolescência. Ele quer sair? Precisa sentar e esperar a porta abrir. Ele quer jantar? Precisa olhar para você e esperar o comando.
Como retomar o foco sem punição excessiva
A punição excessiva na adolescência pode ser desastrosa. O cão já está emocionalmente instável e mais reativo. O uso de força, coleiras de choque ou gritos pode quebrar o vínculo de confiança e gerar agressividade defensiva. Um cão adolescente que se sente ameaçado pelo próprio tutor pode decidir se defender, e é aí que ocorrem acidentes graves.
Em vez de focar no que ele está fazendo de errado, foque obsessivamente em capturar e recompensar o que ele faz certo. Se ele está deitado quieto roendo um brinquedo, elogie e recompense. Se ele olhou para você durante o passeio, recompense. Aumente a frequência do pagamento. Mostre a ele que estar conectado a você é a melhor escolha possível.
Use o princípio de Premack: use um comportamento mais provável (o que ele quer fazer, como cheirar um poste) como recompensa para um comportamento menos provável (andar junto). Peça alguns passos de “junto” e, como prêmio, libere-o para cheirar o poste com um comando “vai cheirar”. Você se torna a porta de acesso para o mundo, não o obstáculo que o impede de curtir o mundo.
Manejo ambiental e rotina para salvar seus móveis
A fisiologia do exercício físico e a redução do cortisol
O cortisol é o hormônio do estresse. Níveis cronicamente altos de cortisol deixam o cão irritado, incapaz de relaxar e com o sono prejudicado. O exercício físico é a principal ferramenta para metabolizar e eliminar esse excesso de cortisol e adrenalina. Mas não qualquer exercício. Caminhadas lentas apenas para o xixi não contam como exercício físico real para um cão adolescente atlético.
Você precisa incorporar atividades aeróbicas e anaeróbicas. Corridas, buscar bolinha (com controle), natação ou brincadeiras com outros cães sociáveis são essenciais. Um cão cansado é um cão bom. Mas cuidado com o “overtraining” ou excesso de excitação. Exercícios muito repetitivos de busca (jogar a bola 50 vezes seguidas) podem na verdade aumentar a adrenalina e deixar o cão “ligadão” em vez de relaxado.
Busque o equilíbrio. O exercício deve ser vigoroso o suficiente para gastar energia, mas deve ser seguido por um período de calma obrigatória. O cão precisa aprender a desligar. Após o exercício, ofereça algo para roer ou lamber. A ação de lamber e mastigar ajuda a baixar a frequência cardíaca e induz o relaxamento pós-atividade.
Enriquecimento ambiental como ferramenta terapêutica
O enriquecimento ambiental não é “perfumaria”, é necessidade básica de saúde mental. Alimentar seu cão adolescente apenas em um pote comum é desperdiçar a melhor oportunidade do dia para gastar energia mental. Cães são predadores e forrageadores; eles foram feitos para trabalhar pela comida.
Use brinquedos recheáveis, tapetes de lamber, caixas de papelão com comida dentro para ele destruir, ou simplesmente espalhe a ração pela grama. 20 minutos de atividade mental intensa tentando tirar a comida de um brinquedo complexo cansam tanto ou mais do que uma hora de caminhada. Isso se chama fadiga cognitiva.
Além da alimentação, o enriquecimento sensorial (novos cheiros, texturas, sons) ajuda a dessensibilizar o cão e a mantê-lo engajado de forma construtiva. Se o cérebro dele estiver ocupado resolvendo o problema de “como tirar esse patê de dentro deste cone de borracha”, ele não estará ocupado planejando como destruir o rodapé da sala.
O gerenciamento do espaço e a prevenção de erros
A liberdade é um privilégio, não um direito. Se seu cão adolescente não sabe se comportar solto pela casa quando você não está olhando, ele não deve ficar solto. O uso de caixas de transporte (treinadas positivamente), cercadinhos ou portões de bebê para limitar o acesso a cômodos é fundamental. Isso evita que o comportamento indesejado (como fazer xixi no tapete da sala ou roer o sofá) seja praticado e se torne um hábito.
Muitos tutores acham que restringir o espaço é cruel. Cruel é deixar o cão errar repetidamente, criar um histórico de conflito com a família e correr o risco de ingerir um corpo estranho que leve a uma cirurgia. A restrição de espaço é temporária e preventiva. É uma ferramenta de manejo para garantir a segurança dele e a integridade da sua casa.
Quando você não puder supervisionar ativamente, o cão deve estar em um local seguro, com água e brinquedos adequados. Quando você estiver supervisionando, ele ganha mais liberdade. À medida que ele amadurece e prova que é confiável, as barreiras vão sendo removidas gradualmente.
Quadro Comparativo: Ferramentas de Apoio para a Adolescência
Muitas vezes, os tutores me perguntam o que comprar para ajudar nessa fase. Analisei três categorias de produtos comuns que auxiliam no manejo comportamental.
| Característica | Brinquedos Recheáveis (ex: Kong) | Difusores de Feromônios (ex: Adaptil) | Coleiras/Suplementos Calmantes |
| Objetivo Principal | Enriquecimento mental e gasto de energia. | Redução de ansiedade via sinalização química. | Modulação química leve do humor. |
| Mecanismo | Estimula a caça/forrageio e libera endorfinas pela mastigação/lambedura. | Mimetiza o feromônio materno que traz segurança e conforto. | Usa ervas (valeriana, passiflora) ou triptofano para induzir relaxamento. |
| Eficácia Imediata | Alta. O cão foca na hora e relaxa após o uso. | Variável. Efeito cumulativo, não funciona para todos os cães. | Média/Baixa. Ajuda suave, mas não resolve crises agudas. |
| Custo-Benefício | Excelente. Durável e reutilizável diariamente. | Médio/Alto. Refis mensais podem ser caros. | Médio. Custo recorrente. |
| Indicação Veterinária | Essencial para todos os cães adolescentes. | Indicado para cães com ansiedade de separação ou medos. | Apoio para cães levemente agitados. |
Aspectos Clínicos e Veterinários da Puberdade
A decisão sobre a castração e o impacto ortopédico
Antigamente, a recomendação era castrar todos os cães antes dos 6 meses. Hoje, a medicina veterinária evoluiu e olhamos para isso com mais cautela, especialmente em cães de médio e grande porte. Os hormônios sexuais desempenham um papel crucial no fechamento das placas de crescimento dos ossos. Castrar muito cedo remove esses hormônios, o que pode fazer com que os ossos cresçam mais do que o programado geneticamente, alterando a angulação das articulações.
Isso pode predispor o animal a problemas ortopédicos futuros, como ruptura de ligamento cruzado ou displasia coxofemoral. Por isso, para muitas raças, recomendamos esperar o fim do crescimento físico (que pode ir até 18 ou 24 meses em raças gigantes) antes de castrar. Essa é uma decisão individual que você deve tomar conversando com seu veterinário, pesando os riscos ortopédicos contra os riscos comportamentais ou de prenhez indesejada.
Comportamentalmente, a castração pode reduzir a marcação de território e a fuga por fêmeas no cio, mas raramente resolve problemas de agressividade por medo ou falta de treinamento. Não encare a cirurgia como uma pílula mágica que vai consertar o comportamento do adolescente. O adestramento continua sendo necessário.
Panosteíte e as dores do crescimento rápido
Você já notou seu cão adolescente mancando de uma pata em um dia e da outra pata no dia seguinte, sem histórico de trauma? Isso pode ser Panosteíte, uma inflamação dolorosa na camada externa dos ossos longos, muito comum em cães jovens de crescimento rápido (como Pastores Alemães, Labradores e Golden Retrievers). É literalmente a “dor do crescimento”.
Essa dor pode deixar o cão mais irritado e menos tolerante ao toque. Se ele reagir mal quando você encosta nas pernas dele ou se recusar a caminhar, não assuma que é teimosia. Pode ser dor física real. O diagnóstico é feito com raio-X e exame clínico. O tratamento envolve analgésicos e repouso.
Ignorar a dor física em um cão adolescente pode criar associações negativas. Se ele sente dor ao brincar com outro cão ou ao obedecer a um comando de “senta”, ele pode começar a evitar essas situações ou reagir agressivamente para se proteger. Sempre descarte causas clínicas antes de assumir que é um problema comportamental.
Ajustes nutricionais para suportar a demanda metabólica
A nutrição do adolescente é um ponto de virada. Dependendo da raça, é nessa fase que fazemos a transição da ração de filhote para a de adulto. Manter uma ração de filhote (que é muito calórica e rica em cálcio) por tempo demais em raças grandes pode acelerar problemas ortopédicos. Por outro lado, mudar cedo demais pode causar déficits nutricionais.
O metabolismo do adolescente é acelerado. Ele está construindo massa muscular e estrutura óssea final. A qualidade da proteína ingerida impacta diretamente na produção de neurotransmissores (como a serotonina) que regulam o humor. Uma dieta pobre ou desbalanceada pode, literalmente, afetar o comportamento do cão, deixando-o mais agitado ou com dificuldade de concentração.
Fique atento ao escore corporal. Adolescentes tendem a ficar “desengonçados” e magros porque crescem em altura antes de ganhar massa. Não tente “engordar” o cão à força dando comida demais. Mantenha-o esbelto para não sobrecarregar as articulações em formação. A costela deve ser palpável, mas não visível à distância.
O Papel do Tutor na Dinâmica Relacional
Gerenciando sua frustração para evitar o ciclo de ansiedade
Eu preciso cuidar de você também, não só do seu cão. É perfeitamente normal sentir o que chamamos de “Puppy Blues” tardio ou frustração extrema nessa fase. Você olha para o cão e pensa: “Eu fiz tudo certo, por que está dando tudo errado?”. Essa frustração é percebida pelo cão. Nossos animais são leitores exímios de linguagem corporal e feromônios humanos. Se você pega a guia já tenso e irritado, o passeio já começa fadado ao fracasso.
Se você sentir que vai perder a cabeça, coloque o cão em um local seguro (caixa ou quarto), feche a porta e vá tomar um café, respirar ou dar uma volta no quarteirão sem ele. É melhor uma pausa de 15 minutos do que uma interação explosiva que vai prejudicar o vínculo de confiança que vocês construíram.
Não leve para o lado pessoal. Repita comigo: “Ele não está me dando trabalho, ele está tendo trabalho”. Ele está lutando com impulsos que não controla. Sua função é ser o porto seguro, o líder calmo que guia, não o tirano que oprime. A sua calma é contagiante, assim como a sua ansiedade.
A socialização secundária contínua
Muitos tutores acham que a socialização acaba quando as vacinas terminam. Erro grave. A adolescência exige uma manutenção da socialização. Se você parar de expor seu cão a pessoas, outros cães e ambientes variados, ele pode regredir e se tornar desconfiado ou reativo.
Continue levando-o para lugares, mas ajuste a expectativa. Talvez ele não consiga ficar uma hora no café com você como antes. Fique 15 minutos, recompense o bom comportamento e vá embora antes que ele fique entediado e comece a latir. O segredo é terminar a experiência em um ponto positivo.
Proteja seu cão de interações ruins. Um ataque de outro cão ou um susto grande nessa fase pode deixar marcas permanentes na personalidade dele. Seja o advogado do seu cão. Não deixe pessoas estranhas abraçarem ele se ele estiver desconfortável. Não deixe cães mal-educados fazerem bullying com ele no parque. Mostre a ele que você controla o ambiente e que ele pode confiar em você para protegê-lo.
Quando diferenciar teimosia de problemas clínicos reais
Por fim, como veterinária, preciso alertar: nem tudo é adolescência. Mudanças bruscas de comportamento, agressividade repentina sem aviso, ou perda de comportamentos muito bem consolidados (como fazer xixi na cama dormindo) podem indicar problemas de saúde.
Infecções urinárias, problemas na tireoide (hipotireoidismo pode causar agressividade e letargia, embora seja mais comum em adultos, pode surgir em jovens), dores crônicas ou problemas neurológicos podem se mascarar de “mau comportamento”.
Se a mudança for drástica e não responder às técnicas de manejo comportamental e adestramento, ou se vier acompanhada de sintomas físicos (perda de pelo, beber muita água, mancar), marque uma consulta. É nosso papel descartar o físico antes de tratar o mental.
A adolescência canina é uma maratona, não uma corrida de 100 metros. Haverá dias bons e dias em que você vai querer doar ele para o circo. Mas, com paciência, manejo adequado, exercício e muito amor, essa fase passa. E o resultado é aquele companheiro leal e equilibrado que você sonhou ter ao seu lado.

