Você já parou no meio do parque, segurando a guia, enquanto observa seu cãozinho enfiar o nariz com entusiasmo debaixo da cauda de um completo estranho? Eu sei que, para nós humanos, essa cena pode parecer constrangedora ou até um pouco anti-higiênica. No consultório, ouço frequentemente tutores me perguntarem se devem corrigir esse comportamento ou se isso é algum tipo de “mania” que precisa ser tratada. A verdade é que, ao impedir essa interação, você pode estar cortando a principal linha de comunicação do seu melhor amigo com o mundo ao redor dele.

Imagine se, ao encontrar uma pessoa, você não pudesse ver o rosto dela, ouvir a voz ou apertar a mão. É mais ou menos isso que acontece quando impedimos dois cães de realizarem a inspeção olfativa traseira. Para eles, o mundo não é primariamente visual como é para nós; o mundo é um mapa complexo de odores químicos. E a região perianal? Bem, ela é basicamente o perfil de rede social mais detalhado que você pode imaginar, atualizado em tempo real com informações sobre saúde, humor e intenções.

Hoje vamos conversar de profissional para tutor, sem rodeios. Quero que você entenda a complexa biologia e a etiqueta social que existem por trás desse gesto aparentemente simples. Vamos mergulhar na anatomia das glândulas adanais, entender como o cérebro do seu cão processa esses cheiros de uma forma que nem sonhamos ser possível e discutir quando você deve intervir e quando deve simplesmente deixar a natureza seguir seu curso. Prepare-se para nunca mais olhar para um passeio no parque da mesma maneira.

O “Aperto de Mão” Químico e a Etiqueta Canina

Um Ritual de Reconhecimento Social

Quando dois cães se encontram, existe uma coreografia muito específica que dita a polidez da interação. O ato de cheirar a região traseira não é uma invasão de privacidade na cultura canina, mas sim um protocolo essencial de apresentação. Pense nisso como a troca de cartões de visita em uma conferência de negócios, mas com um nível de honestidade biológica que nós humanos jamais conseguiríamos replicar. Um cão que permite ser cheirado está demonstrando confiança e abertura social, enquanto o cão que cheira está ativamente coletando dados para saber com quem está lidando.

É fascinante observar como essa dinâmica muda dependendo da personalidade de cada animal. Cães mais confiantes e equilibrados tendem a se aproximar lateralmente, fazendo um arco até chegar à região posterior, enquanto cães mais inseguros podem tentar proteger seus próprios “dados” sentando-se ou encolhendo o rabo, embora ainda queiram investigar o outro. Esse ritual estabelece a base para todo o relacionamento futuro entre aqueles dois animais, definindo em segundos se eles serão parceiros de brincadeira, se um respeitará o espaço do outro ou se é melhor cada um seguir seu caminho.

O que muitos tutores não percebem é que pular essa etapa pode gerar conflitos. Quando forçamos dois cães a ficarem “cara a cara” imediatamente, sem permitir essa inspeção prévia, estamos violando a etiqueta canina. O contato visual direto e frontal pode ser interpretado como ameaça ou desafio. A inspeção traseira funciona como um mecanismo de descompressão, permitindo que os animais se avaliem quimicamente antes de decidirem se engajarão em uma interação mais direta ou física. É um mecanismo evolutivo de segurança para evitar brigas desnecessárias.

A Troca de Informações Biológicas Instantânea

O que torna esse cumprimento tão especial não é apenas o ato físico, mas a velocidade e a profundidade da informação transferida. Em questão de segundos, o olfato do seu cão processa uma quantidade de dados que levaríamos horas para descobrir em uma anamnese clínica detalhada. Eles não estão apenas sentindo um “cheiro ruim”; eles estão lendo uma biografia química. O odor emanado ali conta a história do que o outro cão comeu, onde ele esteve, e até mesmo como ele está se sentindo naquele exato momento.

Essa troca é involuntária. Um cão não pode “mentir” sobre seu cheiro. Enquanto um ser humano pode sorrir para disfarçar tristeza ou raiva, o perfil químico de um cão é brutalmente honesto. Se um cão está estressado, seus hormônios alteram o odor de suas secreções. Se ele está doente, o cheiro muda. Essa transparência biológica permite que os cães ajustem seu comportamento instantaneamente. Você já viu seu cão se aproximar suavemente de um cachorro idoso ou ser extremamente cauteloso com um cão nervoso? Isso acontece porque o nariz dele já lhe deu o “relatório médico e psicológico” completo antes mesmo de qualquer toque físico.

Além disso, essa troca serve como uma ferramenta de memória social. Cães têm uma capacidade incrível de associar odores a indivíduos específicos. Se o seu cachorro encontrar aquele mesmo Golden Retriever no parque daqui a seis meses, ele pode não reconhecê-lo visualmente de imediato, mas assim que sentir o cheiro daquela “assinatura” química, a memória da interação anterior virá à tona. É um sistema de arquivamento social extremamente sofisticado que garante a coesão e a segurança dentro de grupos de canídeos, sejam eles matilhas selvagens ou amigos de pracinha.

Por Que Começar Pelo Rabo e Não Pelo Focinho?

A preferência pela região posterior tem uma explicação anatômica e tática. As glândulas que produzem os odores mais informativos — as famosas glândulas adanais — estão localizadas ali. Tentar obter essas informações cheirando o focinho ou as orelhas seria como tentar ler um livro ouvindo-o ser folheado em outra sala; a informação está lá, mas é fraca e imprecisa. A fonte do sinal mais forte e claro está “lá atrás”, e a evolução ensinou aos cães a irem direto à fonte para obterem os dados mais confiáveis.

Abordar pela traseira também é uma estratégia defensiva inteligente. Quando um cão está com o nariz na cauda do outro, ele está posicionado fora da zona de ataque imediato das mandíbulas do outro animal (a chamada “zona vermelha”). Isso permite que a coleta de informações ocorra com um risco reduzido de mordidas frontais caso o outro cão reaja mal. É uma posição que permite uma fuga rápida se necessário, ao mesmo tempo em que facilita a rotação do corpo para sinalizar submissão ou vontade de brincar.

Além disso, a região da cabeça e do pescoço é onde os cães emitem sinais de dominância ou desafio, como colocar a cabeça sobre o ombro do outro ou olhar fixamente. Ao focar na cauda, o cão visitante evita enviar esses sinais provocativos inadvertidamente. É uma forma diplomática de dizer: “Estou apenas checando quem você é, não estou aqui para brigar”. É por isso que, na clínica, sempre recomendamos que aproximações, especialmente entre cães desconhecidos, sejam feitas permitindo essa dança circular em vez de um encontro frontal forçado pelas guias.

Anatomia Oculta: As Glândulas Adanais e o “RG” do Seu Cão

Localização e Função dos Sacos Anais

Vamos falar de anatomia, mas de uma forma prática. Todo cão, seja um Chihuahua minúsculo ou um Dogue Alemão gigante, possui dois pequenos sacos localizados sob a pele, ao redor do ânus. Se imaginarmos o ânus do cão como o mostrador de um relógio, essas glândulas estariam posicionadas aproximadamente nas horas 4 e 8. Elas não são visíveis externamente em um cão saudável, mas estão lá, trabalhando silenciosamente como fábricas de identidade química.

Esses sacos são revestidos por células sebáceas e sudoríparas modificadas que produzem uma secreção líquida ou pastosa. A função primária biológica dessas glândulas na natureza é a marcação de território e a identificação individual. Cada vez que o cão defeca, a passagem das fezes exerce pressão sobre esses sacos, espremendo uma pequena quantidade do fluido sobre o bolo fecal. É como se o cão estivesse carimbando “Eu estive aqui” em cada depósito que deixa no ambiente.

No entanto, a liberação desse fluido não acontece apenas durante a defecação. Em momentos de medo extremo ou excitação súbita, os músculos ao redor do ânus podem se contrair involuntariamente, esvaziando as glândulas de uma só vez. É aquele cheiro metálico, pungente e extremamente desagradável que você, como tutor, talvez já tenha sentido quando seu cão levou um susto grande. Para nós, é um fedor insuportável; para outros cães, é um sinal de alarme químico potente que avisa sobre perigo iminente na área.

A Composição Única do Fluido Glandular

O que torna esse fluido tão especial a ponto de atrair o nariz de todos os cães da vizinhança? A resposta está na complexidade química. A secreção das glândulas adanais é um coquetel bioquímico rico em aminas, ácidos graxos voláteis e compostos aromáticos. A combinação exata dessas substâncias varia de indivíduo para indivíduo, influenciada pela genética e pelo microbioma do cão. É literalmente uma impressão digital olfativa; não existem dois cães no mundo com o cheiro de glândula anal exatamente igual.

Essa especificidade é o que permite o reconhecimento individual. Quando seu cão cheira o outro, ele não está apenas sentindo “cheiro de cachorro”; ele está identificando a assinatura molecular única do “Rex da casa amarela”. Estudos mostram que os cães conseguem distinguir o cheiro das secreções anais de cães familiares versus cães estranhos com uma precisão impressionante, mesmo que não vejam esses cães há muito tempo. É um sistema de identificação biométrica mais seguro e difícil de falsificar do que qualquer tecnologia humana atual.

Além da identidade, a composição química do fluido muda com o tempo. Fatores hormonais alteram a viscosidade e o perfil aromático da secreção. Isso significa que o “RG” do cão é dinâmico. Ele informa não apenas quem é o indivíduo, mas em que fase da vida ele está. É por isso que cães machos muitas vezes ficam obcecados cheirando fêmeas, ou por que cães adultos podem ter uma paciência diferente ao cheirar filhotes, cujo perfil químico sinaliza imaturidade sexual e, portanto, uma “licença” para serem mais trapalhões socialmente.

Como a Dieta Influencia o Odor Pessoal

Você é o que você come, e para os cães, você cheira como o que você come. A alimentação tem um impacto direto e significativo na composição das secreções das glândulas adanais. As proteínas, gorduras e os processos fermentativos da digestão geram subprodutos que são excretados ou absorvidos e depois secretados por essas glândulas. Portanto, o cheiro do rabo de um cão pode revelar informações sutis sobre sua nutrição e qualidade de vida.

Isso vai além de apenas saber se o outro cão comeu frango ou carne. Mudanças na microbiota intestinal, causadas por diferentes dietas, alteram os gases e os compostos voláteis produzidos. Um cão com uma dieta rica e balanceada terá um perfil olfativo diferente de um cão que come restos ou uma ração de baixa qualidade. Na natureza, essa informação poderia ser valiosa para saber onde um membro da matilha encontrou recursos alimentares de qualidade.

Do ponto de vista clínico, observamos que dietas pobres em fibras podem afetar a saúde dessas glândulas. Fezes muito moles não exercem pressão suficiente para esvaziar os sacos naturalmente, o que pode levar a uma alteração no odor (tornando-o mais pútrido devido à estagnação bacteriana) e eventualmente a problemas de saúde. Assim, quando um cão cheira o outro e percebe algo “estranho” ou excessivamente forte, ele pode estar detectando, inconscientemente, um desequilíbrio nutricional ou digestivo no colega.

O Superpoder Invisível: O Órgão Vomeronasal (Jacobson)

Um Segundo Nariz Dedicado à Comunicação

Agora chegamos à parte mais “ficção científica” da anatomia canina. O seu cão não tem apenas um nariz; ele tem um sistema olfativo acessório chamado Órgão Vomeronasal, ou Órgão de Jacobson. Localizado entre o nariz e o céu da boca, logo atrás dos dentes incisivos superiores, esse órgão é um detector químico especializado que nós, humanos, não possuímos de forma funcional. Ele não serve para sentir o cheiro de bife ou de flores; ele existe exclusivamente para decodificar mensagens químicas sociais, os feromônios.

Quando seu cão está cheirando intensamente o rabo de outro cão, você pode notar que ele às vezes bate os dentes levemente, espuma um pouco ou fica com a boca entreaberta, com um olhar vidrado. Ele está, na verdade, usando a língua e a sucção para direcionar as moléculas de odor para os ductos que levam a esse órgão. É um processo diferente da respiração normal. Ele está literalmente “saboreando” o cheiro para enviá-lo para essa central de processamento especial.

O Órgão de Jacobson é sintonizado para captar moléculas grandes e não voláteis que o nariz comum poderia perder. Enquanto o olfato regular lida com aromas transportados pelo ar, o sistema vomeronasal lida com a comunicação química pesada encontrada em fluidos corporais e secreções glandulares. É por isso que o contato físico direto (focinho no rabo) é tão importante; o cão precisa estar perto o suficiente para aspirar essas moléculas pesadas para dentro do órgão acessório.

A Conexão Direta com o Cérebro Emocional

A grande mágica desse órgão está na sua fiação neurológica. O nariz normal do cão envia sinais para o bulbo olfativo que depois são processados pelo córtex cerebral, onde o cão “pensa” sobre o cheiro (“Hum, isso cheira a bacon”). O Órgão de Jacobson, no entanto, tem uma via expressa direta para o sistema límbico, especificamente para o hipotálamo e a amígdala. Essas são as áreas do cérebro responsáveis pelas emoções, instintos sexuais e reações de agressividade ou medo.

Isso significa que a informação captada ao cheirar o rabo de outro cão não passa pelo filtro do pensamento racional; ela gera uma resposta emocional e fisiológica imediata. O cão não “pensa” que o outro é uma fêmea no cio; o cérebro dele é inundado quimicamente com essa informação, alterando seu estado hormonal instantaneamente. É uma comunicação de inconsciente para inconsciente, muito mais poderosa e primal do que qualquer comando que você possa dar naquele momento.

Essa conexão direta explica por que as reações durante esses cumprimentos podem ser tão intensas e rápidas. Se o Órgão de Jacobson detecta feromônios de agressividade ou tensão no outro cão, a amígdala do seu cão dispara um sinal de alerta antes mesmo que ele tenha tempo de “raciocinar”. Isso é vital para a sobrevivência, permitindo reações de luta ou fuga em frações de segundo. Entender isso nos ajuda a ter mais paciência com nossos cães; muitas vezes eles estão reagindo a um “grito químico” que nós somos incapazes de ouvir.

A Diferença Entre Cheirar e Respirar

É crucial diferenciar o ato de respirar para oxigenação do ato de farejar ativamente. Quando um cão está investigando o rabo de outro, a dinâmica do fluxo de ar em seu focinho muda completamente. Durante o farejamento investigativo, o ar é inalado em curtas e rápidas rajadas, o que cria turbulência e ajuda a prender as moléculas de odor nas membranas olfativas. O ar carregado de cheiro é separado: uma parte vai para os pulmões, mas uma porção significativa é retida nos recessos nasais para análise.

O cão consegue controlar suas narinas de forma independente, o que lhe permite até mesmo saber a direção de onde vem o cheiro, mas no caso do cumprimento anal, o foco é a intensidade. Ao usar o Órgão de Jacobson simultaneamente, o cão está operando em “dual band”, captando odores voláteis pelo nariz e feromônios pelo ducto incisivo. É uma experiência sensorial estéreo e de alta definição.

Para o tutor, observar essa diferença é importante. Um cão que está apenas respirando está relaxado. Um cão que está farejando ativamente, com as narinas dilatando e o corpo tenso, está em alto processamento de dados. Interromper esse processo bruscamente pode ser confuso ou frustrante para o animal, comparável a alguém arrancar o telefone da sua mão no meio de uma frase importante. Se a interação for segura, permitir esses segundos de “análise profunda” satisfaz a necessidade biológica do cão e tende a acalmá-lo.

Decodificando os Dados: O Que Eles Realmente Descobrem?

Identificando Gênero e Disponibilidade Reprodutiva

A informação mais básica e biologicamente imperativa que as glândulas adanais transmitem é o sexo do animal e seu status reprodutivo. Para machos não castrados, o cheiro de uma fêmea no estro (cio) é inconfundível e pode ser detectado a grandes distâncias, mas é na inspeção próxima que a confirmação acontece. Os feromônios sexuais são potentes e agem como chaves que destravam comportamentos de cortejo específicos.

Mesmo para animais castrados, essa identificação de gênero continua sendo relevante para a dinâmica social. Cadelas fêmeas podem ter interações diferentes com outras fêmeas em comparação com machos. O cheiro informa não apenas “sou fêmea”, mas também nuances hormonais que podem indicar se ela está gestante ou lactante (mesmo que não esteja com filhotes presentes), o que naturalmente inibe a agressividade em muitos machos adultos.

Para o cão, saber o gênero do outro ajuda a modular a força da brincadeira e o tipo de abordagem. Você notará frequentemente que machos tendem a ser mais tolerantes e “bobos” com fêmeas, permitindo que elas sejam mais rudes nas brincadeiras, algo que eles não tolerariam de outro macho. Toda essa etiqueta de cavalheirismo canino começa com a confirmação olfativa feita ali, na região da cauda.

Detectando Medo, Estresse e Ansiedade

Aqui entra a parte mais sutil e empática da olfação canina. O estresse e o medo alteram a química do corpo. Quando um cão está ansioso, seus níveis de cortisol sobem e suas glândulas secretam feromônios de alarme. Ao cheirar o rabo de um colega, seu cão consegue saber se aquele animal está relaxado e confiante ou se está aterrorizado, mesmo que ele esteja parado e quieto.

Essa capacidade de “ler a mente” através do nariz explica por que alguns cães reagem mal a cães que parecem não estar fazendo nada. Um cão medroso pode estar emitindo um cheiro químico de “perigo/medo” que deixa os outros cães em alerta ou, infelizmente, pode despertar o instinto de predação ou bullying em cães menos socializados. Por outro lado, cães terapeutas ou muito bem socializados usam essa informação para se aproximar com mais cautela, oferecendo sinais de apaziguamento para acalmar o colega nervoso.

Como veterinário, vejo isso diariamente. Cães que entram na sala de espera logo após um animal muito estressado ter saído muitas vezes ficam inquietos. Eles estão sentindo o “cheiro do medo” deixado pelas glândulas anais e pelas patas (que também têm glândulas) do paciente anterior. No parque, seu cão pode evitar um cachorro específico não porque ele parece malvado, mas porque ele cheira a uma bomba-relógio de ansiedade.

O Histórico de Saúde e Imunidade do Outro Cão

O sistema imunológico tem um cheiro. Cães possuem genes do Complexo Principal de Histocompatibilidade (MHC) que influenciam o odor corporal. Na natureza, a preferência por parceiros com MHC diferente garante diversidade genética e imunidade mais forte para a prole. Embora nossos cães domésticos geralmente não escolham seus parceiros reprodutivos, esse instinto de avaliar a saúde genética e imunológica do outro permanece.

Além da genética, doenças ativas alteram o metabolismo e, consequentemente, o cheiro das excreções. Infecções, diabetes, ou problemas renais mudam o hálito e também o odor das glândulas perianais. Cães são capazes de detectar essas alterações sutis. Existem relatos de cães que mudam seu comportamento com companheiros de casa dias antes de os sintomas de uma doença se tornarem visíveis para os donos.

Essa variação no cheiro pode fazer com que um cão saudável rejeite ou evite um cão doente, um comportamento instintivo para evitar contágio na matilha. Ou, em casos de cães muito ligados, pode despertar um comportamento de cuidado e proteção excessiva. Quando seu cão insiste em cheirar uma área específica de outro animal repetidamente, ele pode estar detectando uma inflamação ou infecção local que nem o outro tutor percebeu ainda.


Comparativo: Ferramentas de Identificação Canina

Para ilustrar por que o olfato é a “ferramenta premium” do seu cão, veja esta comparação com os outros sentidos que ele usa para identificar amigos ou inimigos:

CaracterísticaOLFATO (Cheirar o Rabo)AUDIÇÃO (Latidos/Rosnados)VISÃO (Linguagem Corporal)
Precisão da IdentificaçãoAltíssima (Identidade única, como DNA)Média (Identifica tom e urgência)Média/Alta (Depende da visibilidade)
Informação OcultaRevela dieta, hormônios, saúde internaRevela apenas estado de alerta atualRevela intenção imediata, mas pode enganar
Alcance da MemóriaLongo Prazo (Lembra do cheiro por anos)Curto/Médio PrazoMédio Prazo
Honestidade do Sinal100% Confiável (Involuntário)Pode ser manipulado (ex: latido de medo)Pode ser ambíguo em certas raças
Função Social“Ler o diário íntimo” do outro“Gritar” uma mensagem à distância“Sinalizar” de longe

Quando o Comportamento Indica Problemas Clínicos

A Diferença Entre Cumprimento e Obsessão

Embora cheirar o rabo seja normal, existe uma linha tênue entre o comportamento social saudável e a fixação patológica. Se o seu cão não consegue parar de cheirar a região anal de outros cães, ignorando sinais de desconforto do outro animal ou comandos seus, podemos ter um problema. Isso pode indicar uma falta de habilidades sociais (ele não sabe quando “desligar”), mas também pode indicar que ele está sentindo algo muito atraente ou perturbador no outro cão, como uma infecção grave nas glândulas adanais do colega.

Por outro lado, se o seu cão é aquele que está sendo obsessivamente cheirado por todos no parque, vale a pena investigar. Fêmeas com vaginites, cães com saculite (inflamação dos sacos anais) ou mesmo infecções de pele na região perianal podem ter o cheiro alterado e se tornarem “ímãs” de focinhos, o que é muito estressante para eles. Se de repente seu cachorro virou a atração principal do “cheira-bumbum”, traga-o para um check-up.

O Sinal do “Scooting”: Arrastar o Bumbum no Chão

Já que estamos falando dessa região, preciso alertar sobre o famoso “scooting”, ou o ato de arrastar o bumbum no tapete ou na grama. Muitos tutores riem e acham que o cão está apenas se coçando ou limpando, ou associam imediatamente a vermes. Embora vermes possam causar coceira, a causa número um desse comportamento é a impactação ou inflamação das glândulas adanais.

Quando os sacos anais não se esvaziam naturalmente (devido a fezes moles, anatomia dos ductos ou obesidade), o fluido engrossa e vira uma pasta. Isso causa pressão, dor e coceira intensa. O cão arrasta o bumbum na tentativa desesperada de esvaziar essas glândulas. Se você ver seu cão fazendo isso, ou se ele cheira o próprio rabo excessivamente e tenta morder a base da cauda, ele precisa de ajuda veterinária para esvaziar essas glândulas manualmente antes que virem um abscesso doloroso.

Riscos de Transmissão de Doenças no Contato Direto

Como veterinário, preciso ser realista: onde há secreções, há risco biológico. Embora o ato de cheirar seja natural, focinhar o ânus de um cão desconhecido carrega riscos. Ovos de parasitas intestinais (como Giardia e vermes) podem ficar aderidos aos pelos ao redor do ânus. Ao cheirar ou lamber aquela região, seu cão pode ingerir esses ovos microscópicos.

Não estou dizendo para você proibir o cumprimento – isso seria prejudicial socialmente – mas é um lembrete da importância de manter a vermifugação e a vacinação do seu pet em dia. Um cão protegido corre riscos mínimos. Além disso, evite que seu cão cheire cães que visivelmente estão com diarreia ou sujeira excessiva na região traseira. O bom senso higiênico também se aplica ao mundo canino.

O Papel do Tutor na Interação Social

O Erro de Puxar a Guia Durante a Checagem

Este é o erro mais comum que vejo nas ruas. Dois cães começam a girar para se cheirar e o tutor, tenso, puxa a guia para cima e para trás. Ao fazer isso, você altera a postura do seu cão, elevando a cabeça e o peito dele, o que na linguagem canina pode parecer uma postura de ataque ou arrogância para o outro cão. Além disso, a tensão na guia transmite sua ansiedade diretamente para ele.

Quando a guia estica, o cão sente que não tem rota de fuga. Isso pode transformar uma curiosidade inocente em agressividade defensiva (reatividade). Se o encontro for permitido, mantenha a guia frouxa (faça um “U” com a guia). Deixe eles girarem. Essa dança dura geralmente 3 a 5 segundos. Se você puxar, você interrompe a coleta de dados e deixa ambos os cães frustrados e desconfiados.

Gerenciando Cães Reativos ou Tímidos

Nem todo cão gosta de ter seu “RG” lido por estranhos, e isso deve ser respeitado. Cães tímidos ou que já tiveram traumas podem se sentir extremamente vulneráveis ao terem a retaguarda inspecionada. Se o seu cão coloca o rabo entre as pernas e tenta se esconder atrás de você, ele está dizendo “não quero interagir”. Não force. Não deixe o outro cão chegar perto dizendo “ah, ele só quer dar um oi”.

Você é o advogado do seu cão. Se ele não está confortável com a inspeção anal, bloqueie o acesso do outro cão gentilmente com seu corpo ou mude de direção. A socialização forçada cria cães reativos. Por outro lado, se você tem o cão “investigador” excessivo, treine um comando de “vamos” ou “junto” para chamá-lo de volta caso o outro cão demonstre desconforto. A etiqueta canina é uma via de mão dupla.

A Importância de Deixar o Cão “Ser Cachorro”

Vivemos em uma sociedade higienista e muitas vezes antropomorfizamos nossos animais, projetando neles nosso nojo humano por certas coisas. Mas para ter um cão mentalmente saudável, precisamos deixá-lo exercer seus instintos naturais de forma segura. Cheirar o rabo é uma necessidade etológica. É como eles leem as notícias do bairro.

Privar um cão olfativamente é como vendar uma pessoa. Cães que podem cheirar e investigar o ambiente e outros cães durante o passeio voltam para casa mais cansados mentalmente e mais relaxados do que aqueles que apenas andaram mecanicamente ao lado do dono. Então, na próxima vez que ele for em direção à cauda de um amigo de quatro patas, lembre-se: ele não está sendo rude, ele está apenas atualizando o banco de dados social dele. E se tudo estiver seguro, deixe-o cheirar.