Problemas oculares em felinos estão entre as principais razões que trazem tutores preocupados ao meu consultório todos os dias. Perceber que o seu gato está com o olho fechado, lacrimejando excessivamente ou apresentando aquela secreção amarelada gera uma angústia imediata, e com razão. Os olhos dos gatos são ferramentas de caça precisas, mas também estruturas extremamente delicadas que refletem a saúde geral do animal.
Não estamos falando apenas de um desconforto passageiro. Muitas vezes, o “olho chorando” é a ponta do iceberg de condições que variam desde uma simples poeira até doenças virais crônicas ou problemas de pressão arterial. Como veterinário, meu objetivo aqui é te guiar além do básico. Quero que você entenda o que está acontecendo biologicamente com seu pet, saiba diferenciar uma emergência de uma limpeza de rotina e, principalmente, aprenda a cuidar dele da maneira correta em casa.
Vamos mergulhar fundo nesse universo oftalmológico felino. Esqueça as receitas milagrosas da internet e vamos focar em ciência, fisiologia e prática clínica real. Preparei este material para que você se sinta segura ao observar seu gato e saiba exatamente quando acionar o suporte profissional.
Entendendo a anatomia e a secreção ocular felina
A diferença entre lágrima normal e secreção patológica
Você precisa saber diferenciar o que é fisiológico do que é patológico logo de cara. A lágrima tem uma função vital de lubrificação, nutrição da córnea e proteção imunológica. É normal que, ao acordar, seu gato tenha uma pequena, minúscula “remela” seca no canto do olho, muitas vezes de cor escura devido à oxidação dos pigmentos lacrimais em contato com o ar. Isso não é doença, é apenas o sistema de limpeza natural do olho funcionando enquanto ele dorme.
O problema começa quando a quantidade ou a qualidade dessa secreção muda drasticamente. Se você nota que o olho está sempre molhado, escorrendo uma lágrima transparente em excesso (o que chamamos de epífora), isso indica uma irritação inicial ou um bloqueio na drenagem. O olho está tentando “lavar” algo que o incomoda. É o primeiro estágio de alerta que o organismo do seu gato emite.
A situação se agrava quando essa secreção muda de cor e consistência. Uma secreção mucopurulenta, aquela amarelada ou esverdeada e espessa, indica presença de bactérias e células de defesa mortas (neutrófilos). Isso já não é mais apenas uma irritação; é uma infecção ativa. Nesse estágio, a córnea e a conjuntiva estão sob ataque e o sistema imune local está sobrecarregado, exigindo intervenção externa imediata para evitar danos permanentes às estruturas oculares.
A terceira pálpebra e seus sinais de alerta
Os gatos possuem uma estrutura fascinante chamada membrana nictitante, ou terceira pálpebra. Ela fica localizada no canto interno do olho, próximo ao nariz, e funciona como um “limpador de para-brisa” extra, além de conter uma glândula importante para a produção de lágrima. Em um gato saudável e alerta, você raramente vê essa membrana, pois ela fica recolhida.
Quando a terceira pálpebra se torna visível, cobrindo parte do olho do seu gato, é um sinal clínico inespecífico, mas muito importante, que chamamos de protrusão da terceira pálpebra. Isso pode acontecer por dor ocular direta, fazendo com que o globo ocular se retraia para dentro da órbita (enoftalmia) como mecanismo de proteção, empurrando a membrana para frente.
No entanto, a aparição dela também pode indicar problemas sistêmicos, como desidratação severa, febre, perda de peso rápida ou doenças gastrointestinais. Existe até uma síndrome neurológica chamada Síndrome de Horner que faz essa pálpebra subir. Portanto, se você vê essa pelezinha branca ou rosada cobrindo o olho do seu gato, não assuma que é “só uma conjuntivite”. É um pedido de socorro do corpo todo.
Epífora: A dinâmica da drenagem lacrimal
Muitos tutores chegam ao consultório reclamando que o gato “chora” o tempo todo, manchando os pelos abaixo dos olhos de marrom. Chamamos isso de epífora. Para entender isso, imagine uma pia. A torneira (glândula lacrimal) produz a lágrima, e o ralo (pontos lacrimais e ducto nasolacrimal) drena esse líquido para dentro do nariz. É por isso que, quando choramos, nosso nariz escorre.
A epífora ocorre quando há um desequilíbrio nessa pia: ou a torneira está aberta demais (produção excessiva por irritação/dor) ou o ralo está entupido. Em gatos de focinho achatado, como Persas e Exóticos, a anatomia do “ralo” é tortuosa e ineficiente geneticamente, causando transbordamento crônico. Isso exige limpeza diária para evitar que a umidade constante cause dermatite na pele do rosto.
Porém, em gatos de focinho normal, um ducto entupido pode ser resultado de sequelas de gripes passadas que causaram aderências (cicatrizes internas) no canal, ou até mesmo inflamações ativas como rinites e problemas dentários, já que as raízes dos dentes superiores passam muito perto desse canal de drenagem.
O Complexo Respiratório e as Causas Virais
Rinotraqueíte Viral Felina: O grande vilão
Se existe um culpado principal pelas doenças oculares em gatos, é o Herpesvírus Felino tipo 1, causador da Rinotraqueíte. É extremamente provável que seu gato tenha contato com esse vírus em algum momento da vida. Ele atua de forma muito similar ao herpes labial em humanos: uma vez infectado, o gato carrega o vírus para sempre em estado de latência nos gânglios nervosos.
Quando a imunidade do gato cai — seja por estresse, mudança de casa, chegada de um novo animal ou frio — o vírus “acorda” e migra para as mucosas. Nos olhos, ele causa uma conjuntivite forte, muito inchaço (quemose) e pode causar lesões na superfície da córnea chamadas ceratites dendríticas. É doloroso e altamente contagioso entre gatos.
O grande perigo da Rinotraqueíte não tratada, especialmente em filhotes, é a formação de simbléfaro. Isso ocorre quando a inflamação é tão violenta que as superfícies cruas da pálpebra cicatrizam grudadas no globo ocular. Isso pode causar cegueira definitiva ou deformações permanentes que exigem cirurgias complexas para correção. Por isso, tratamos agressivamente qualquer sinal de gripe que envolva os olhos.
Clamidiose: Quando a bactéria complica o cenário
Diferente do vírus da Rinotraqueíte, a Chlamydia felis é uma bactéria intracelular. Ela adora causar uma conjuntivite crônica e persistente. O sinal clássico que observamos na clínica é uma inchaço (edema) severo da conjuntiva, aquela parte rosa interna das pálpebras. O olho fica parecendo uma “carne esponjosa”, saltada para fora, muitas vezes unilateral inicialmente, passando para o outro olho depois de alguns dias.
A secreção na clamidiose costuma ser menos líquida e mais mucosa. O tratamento aqui exige antibióticos específicos, geralmente da família das tetraciclinas, tanto em colírio quanto, muitas vezes, via oral, para garantir a eliminação sistêmica da bactéria.
Outro ponto crucial sobre a Clamídia é o potencial zoonótico, embora raro. É possível, em situações de higiene precária e baixa imunidade humana, que haja transmissão. Por isso, sempre oriento meus clientes a lavarem muito bem as mãos após manipularem um gato com conjuntivite, independente da causa suspeita.
Calicivirose e as lesões associadas
O Calicivírus é o “primo” do Herpesvírus no complexo respiratório, mas ele tem predileção por causar úlceras na boca e língua, fazendo o gato babar muito e parar de comer. No entanto, ele também pode afetar os olhos, embora de forma geralmente menos severa que o Herpes.
O problema do Calicivírus é a virulência e a capacidade de mutação. Algumas cepas agressivas podem causar o que chamamos de síndrome sistêmica virulenta, que leva a inchaço nas patas e face, além dos olhos. A conjuntivite por Calicivírus muitas vezes vem acompanhada de gengivite severa.
No consultório, a distinção exata entre Herpes e Calicivírus muitas vezes é feita pelos sinais clínicos associados (úlceras na boca apontam para Calicivírus, espirros e úlceras de córnea apontam para Herpes), mas o manejo de suporte e a necessidade de manter os olhos limpos e lubrificados são comuns a ambos os casos.
Traumas, Úlceras e Corpos Estranhos
Úlceras de Córnea: O perigo invisível aos olhos nus
A córnea é a “janela” transparente do olho. Ela tem diversas camadas, e quando a camada mais superficial (epitélio) é arranhada ou danificada, temos uma úlcera de córnea. Isso dói muito. O sinal mais claro de dor ocular em gatos é o blefaroespasmo: o gato mantém o olho fechado ou semiaberto, evita a luz (fotofobia) e pode ficar mais quieto num canto.
Essas úlceras podem ser causadas pelo próprio vírus da herpes, mas frequentemente são traumáticas: o gato coçou o olho, bateu em algum móvel ou arranhou em uma planta. O grande risco da úlcera é a contaminação bacteriana. O que era um arranhão vira uma cratera “derretendo” a córnea (queratomalácia), podendo levar à perfuração do olho e perda do órgão em questão de 24 a 48 horas.
Você não consegue ver a profundidade de uma úlcera a olho nu em casa. O olho pode parecer apenas “embaçado” ou azulado (edema de córnea). Por isso, jamais usamos colírios que contenham corticoides em gatos com olho fechado sem antes fazer um teste específico, pois o corticoide inibe a cicatrização e pode fazer o olho perfurar rapidamente.
Entrópio e os cílios que ferem
Algumas raças, como os Persas e Maine Coons, ou gatos idosos machos não castrados que desenvolvem bochechas grandes, podem sofrer de entrópio. É uma condição anatômica onde a pálpebra se enrola para dentro. Imagine ter seus cílios roçando dentro do seu olho 24 horas por dia. É uma tortura constante.
Isso gera um ciclo vicioso: o olho dói, o gato aperta o olho (blefaroespasmo), o que enrola a pálpebra ainda mais para dentro, causando mais dor e mais úlceras. O lacrimejamento aqui é constante porque o olho está tentando se defender de uma agressão física ininterrupta.
O tratamento definitivo para o entrópio é cirúrgico. Precisamos fazer uma plástica pálpebral para “desenrolar” essa pálpebra e garantir que os pelos fiquem do lado de fora. Nenhuma pomada ou limpeza vai resolver o problema se a causa mecânica (os cílios raspando) não for removida.
Unhadas e brigas: A urgência do atendimento
Gatos têm bactérias muito específicas e perigosas embaixo das unhas. Quando ocorre uma briga e um gato leva uma unhada no olho, introduzimos essas bactérias diretamente no ambiente intraocular ou na córnea profunda. A lesão perfurante por unha de gato sela rapidamente por fora, aprisionando a infecção lá dentro.
Isso pode causar uma uveíte séptica fulminante. O olho fica turvo, vermelho, e o gato sente uma dor excruciante. Em muitos casos, a lente (cristalino) é perfurada, liberando proteínas que causam uma reação inflamatória violenta.
Se você viu ou suspeita que seu gato brigou e agora está com o olho fechado, isso é uma emergência veterinária real. Esperar “amanhecer para ver se melhora” pode significar a diferença entre salvar a visão ou ter que remover o globo ocular. O tempo é tecido ocular.
Alergias e Irritantes Silenciosos em Casa
A areia sanitária e o pó como inimigos
Muitas vezes culpamos vírus e bactérias, mas o inimigo está na caixa de areia. Areias sanitárias de baixa qualidade, especialmente aquelas minerais com muito talco ou fragrâncias fortes, levantam uma nuvem de pó cada vez que o gato cava. Como o rosto dele está a centímetros da areia nesse momento, a poeira entra diretamente nos olhos e narinas.
Isso causa uma conjuntivite alérgica crônica e rinite. O olho fica vermelho, lacrimeja uma secreção clara, mas o gato não parece doente sistemicamente (come bem, brinca). A solução aqui não é remédio, é manejo: trocar a areia por substratos vegetais (mandioca, milho, madeira) ou sílica de boa qualidade que não levante pó.
Observe se o lacrimejamento piora logo após ele usar o banheiro. Se sim, você tem um forte indício de que a causa é ambiental e química, não infecciosa.
Produtos de limpeza e difusores de aroma
Nós amamos casa cheirosa, mas o sistema respiratório e ocular dos gatos é muito mais sensível que o nosso. Produtos de limpeza com amônia, cloro (água sanitária) ou fragrâncias sintéticas fortes são altamente irritantes para as mucosas felinas.
Difusores de óleos essenciais ou aqueles de tomada podem ser tóxicos e irritantes. O aerossol constante deposita micropartículas nos olhos e no nariz do gato. Alguns óleos essenciais, inclusive, são tóxicos para o fígado do gato se inalados ou absorvidos, mas o primeiro sinal costuma ser a irritação ocular.
Ao limpar a casa, prefira produtos “pet friendly” ou neutros. Enxague bem as superfícies onde o gato circula. Se você usa difusores e seu gato vive com o olho irritado, faça o teste: desligue tudo por duas semanas e veja se o quadro melhora. Muitas vezes a resposta é surpreendente.
O cigarro e a fumaça na saúde ocular do gato
Fumantes passivos sofrem, e os gatos sofrem ainda mais por serem animais pequenos e ficarem mais próximos do chão, onde algumas partículas pesadas se depositam, ou no colo do tutor, recebendo a fumaça direta. A fumaça do tabaco é um irritante potente que resseca o filme lacrimal e causa inflamação crônica da conjuntiva.
Além do cigarro, a fumaça de incensos e velas aromáticas em ambientes fechados tem o mesmo efeito nocivo. A fuligem e os compostos voláteis alteram a qualidade da lágrima, fazendo com que ela evapore muito rápido. O olho fica “seco” e o corpo responde produzindo mais lágrima aquosa para compensar, gerando aquele olho que chora mas está sempre irritado.
Se você fuma, faça-o longe do seu gato, preferencialmente em áreas externas. A saúde ocular dele (e a pulmonar) agradecerá imensamente, reduzindo as idas ao veterinário por crises respiratórias e oculares.
Diagnóstico Diferencial e Exames no Consultório
O Teste de Fluoresceína e sua importância
Quando você traz seu gato ao consultório, um dos primeiros testes que faço é o de fluoresceína. Pingamos um colírio laranja no olho do gato e, após lavar com soro, iluminamos com uma luz azul cobalto. Onde houver lesão na córnea (úlcera), o corante adere e brilha num verde fluorescente intenso.
Esse teste é fundamental porque define o tratamento. Se a fluoresceína “pegar”, ou seja, se houver úlcera, é proibido usar corticoides. Se der negativo, podemos pensar em outras linhas de tratamento anti-inflamatório.
É um exame rápido, indolor e barato que nos dá uma resposta binária imediata sobre a integridade da superfície do olho. Sem ele, estamos tratando no escuro e correndo riscos desnecessários.
Teste de Schirmer e a produção de lágrima
O Teste de Schirmer mede a quantidade de lágrima produzida. Colocamos uma fitinha de papel milimetrado no canto do olho do gato por um minuto. A lágrima molha o papel e vemos até onde ela chegou. Isso diagnostica a Ceratoconjuntivite Seca (“Olho Seco”).
Embora seja mais comum em cães, gatos também podem ter olho seco, muitas vezes associado a infecções crônicas por herpesvírus que destruíram as glândulas lacrimais ou doenças autoimunes. Um olho que não produz lágrima suficiente é um olho que vai ulcerar e pigmentar, perdendo a transparência.
Identificar isso muda o foco do tratamento: em vez de antibióticos, precisamos focar em lubrificantes potentes e imunomoduladores para estimular a produção de lágrima ou substituir sua função artificialmente.
Pressão intraocular e fundo de olho
O olho é uma bola cheia de líquido. Se a pressão desse líquido sobe, temos o Glaucoma. Se desce demais, temos Uveíte. Usamos um aparelho chamado tonômetro para medir essa pressão. O glaucoma em gatos é traiçoeiro e silencioso, causando dor de cabeça e cegueira irreversível se não tratado.
Já o exame de fundo de olho nos permite ver a retina e os vasos sanguíneos lá no fundo. É através desse exame que muitas vezes diagnostico hipertensão arterial sistêmica antes mesmo de medir a pressão no braço do gato. Vemos vasos tortuosos ou hemorragias na retina que indicam que algo no corpo todo (como rins ou coração) não vai bem.
Esses exames mostram que o olho não é um órgão isolado. Ele é um monitor da saúde geral do paciente.
Tratamento e Higiene Ocular na Prática
A técnica correta de limpeza com soro fisiológico
A limpeza é 50% do tratamento. A remela acumulada é cheia de bactérias e toxinas que irritam a pele. Para limpar, você vai precisar de gaze (não use algodão, pois as fibras soltam e entram no olho, piorando a situação) e soro fisiológico 0.9%.
O segredo é a temperatura. O soro gelado incomoda. Aqueça levemente o frasco de soro na mão ou em água morna até ficar na temperatura corporal. Umedeça bem a gaze. Não esfregue o olho. Coloque a gaze molhada sobre o olho fechado e deixe “de molho” por alguns segundos para amolecer as crostas.
Só depois que estiver mole, você remove delicadamente, sempre do canto interno (nariz) para o externo. Use uma gaze diferente para cada olho para não levar infecção de um lado para o outro. Faça isso pelo menos duas vezes ao dia ou sempre que notar acúmulo de secreção.
Como aplicar colírios sem travar uma batalha
Aplicar colírio em gato é uma arte. A abordagem frontal é o erro mais comum. Se você vem com o frasco de frente, o gato vê, assusta e recua. A melhor técnica é a abordagem por trás ou por cima da cabeça.
Coloque o gato de costas para você, sentado no meio das suas pernas ou em uma mesa/bancada (lugares altos deixam eles mais inseguros e parados). Com uma mão, levante o queixo dele para que o focinho aponte para o teto. Com a mesma mão, use o dedo polegar para puxar levemente a pálpebra inferior ou superior.
Com a outra mão, venha com o colírio por trás da cabeça dele, de cima para baixo. Pingue a gota. A gravidade ajuda. Assim que a gota cair, solte e deixe ele piscar. Recompense imediatamente com um petisco delicioso (sachê ou Churu). Ele precisa associar o colírio a algo positivo.
O colar elizabetano é mesmo necessário?
Sei que vocês odeiam o “cone da vergonha”, e os gatos odeiam ainda mais. Mas em oftalmologia, ele é, muitas vezes, inegociável. Um gato com dor ou coceira no olho vai tentar passar a pata. A unha do gato é suja e afiada.
Um tratamento de 10 dias pode ser perdido em 1 segundo se o gato coçar o olho e perfurar a córnea que estava cicatrizando. Existem hoje colares mais confortáveis, de tecido ou infláveis, mas verifique se eles realmente impedem o gato de alcançar o olho.
Se o veterinário prescreveu o colar, use. Tire apenas para ele comer e beber água sob sua supervisão estrita, e recoloque imediatamente. É um desconforto temporário para evitar uma cegueira permanente.
Doenças Sistêmicas com Repercussão Ocular (Item Novo 1)
Uveíte como sinal de PIF, FeLV e FIV
Às vezes, o olho fica “estranho” — muda de cor (fica mais avermelhado ou amarelado por dentro), a pupila fica contraída (miose) e a íris parece inflamada. Isso é uveíte, uma inflamação interna. Em gatos, a uveíte é um grande sinal de alerta para doenças virais sistêmicas graves.
A PIF (Peritonite Infecciosa Felina), a FeLV (Leucemia Felina) e a FIV (Aids Felina) frequentemente se manifestam através de uveítes antes de outros sintomas. O complexo antígeno-anticorpo se deposita no olho causando essa reação.
Portanto, se diagnostico uma uveíte no consultório que não tem origem traumática óbvia, meu protocolo padrão é pedir sorologia para essas viroses. Tratar o olho sem investigar a causa base é enxugar gelo. O olho é o sentinela do sistema imunológico.
Hipertensão arterial e o risco de cegueira súbita
Gatos idosos, especialmente aqueles com Doença Renal Crônica ou Hipertireoidismo, tendem a ter pressão alta. A pressão alta faz com que os vasos sanguíneos da retina, que são muito delicados, estourem ou vazem líquido.
Isso causa o Descolamento de Retina. O sintoma é assustador: o gato fica cego de repente. As pupilas ficam enormes (midríase), não respondem à luz, e o gato começa a esbarrar nas coisas. Muitas vezes, observamos sangue dentro do olho (hifema).
A boa notícia é que, se diagnosticado muito rapidamente (em questão de horas ou poucos dias) e a pressão for controlada com medicação anti-hipertensiva, a retina pode “colar” de volta e a visão retornar parcialmente. Por isso, check-ups em gatos idosos devem sempre incluir aferição de pressão arterial.
Diabetes e alterações no cristalino
Embora a catarata diabética seja muito mais comum em cães, gatos diabéticos também sofrem alterações oculares. A hiperglicemia afeta os nervos e vasos. Mas o sinal mais comum que vejo não é no olho em si, mas na postura do gato devido à neuropatia, e a desidratação causada pelo diabetes faz o olho ficar “fundo” e sem brilho.
Contudo, qualquer alteração na transparência do cristalino (a lente do olho ficar esbranquiçada) deve ser investigada. Pode ser velhice (esclerose nuclear), mas pode ser catarata patológica. Manter a glicemia controlada é a melhor forma de proteger a microcirculação ocular do seu felino.
Prevenção e Manejo Ambiental Estratégico (Item Novo 2)
O papel crucial da vacinação (V3, V4 e V5)
Prevenir é infinitamente mais barato e menos doloroso que tratar. A vacina múltipla felina (V3, V4 ou V5) protege diretamente contra o Herpesvírus e o Calicivírus, os dois maiores causadores de problemas oculares.
Gatos vacinados podem até pegar a gripe, mas os sintomas serão muito mais brandos. Em vez de uma úlcera de córnea perfurante, ele terá apenas um leve lacrimejamento por alguns dias. Manter a vacinação em dia é o pilar central da saúde oftalmológica preventiva.
E lembre-se: vacinas não duram para sempre. O reforço anual (ou conforme protocolo do seu vet) é essencial para manter os níveis de anticorpos altos na mucosa ocular e respiratória.
Controle de estresse e imunidade
Como falamos, o Herpesvírus é oportunista e adora estresse. Se o seu gato tem histórico de “olho ruim” recorrente, você precisa virar um gerente de estresse felino. Mudanças na rotina, obras em casa, hóspedes, falta de enriquecimento ambiental — tudo isso baixa a imunidade.
Use feromônios sintéticos (como Feliway) em momentos de mudança. Garanta que ele tenha lugares altos para se esconder (gatificação). Uma boa nutrição, com rações super premium ricas em antioxidantes e ômega-3, ajuda a manter a barreira cutânea e ocular mais fortes.
Lisina é um suplemento controverso; alguns estudos dizem que ajuda a frear a replicação do herpes, outros dizem que não faz diferença. Converse com seu veterinário sobre o uso de imunomoduladores (como betaglucanas) em gatos portadores crônicos.
Higiene do ambiente em casas com múltiplos gatos
Se você tem vários gatos, a reinfecção é um problema. Um gato melhora, o outro pega, e devolve para o primeiro. Chamamos isso de “efeito ping-pong”. A higiene do ambiente é vital.
O vírus da rinotraqueíte não resiste muito tempo no ambiente, mas resiste o suficiente para passar de uma caminha para outra. Lave as cobertas e caminhas regularmente. Mantenha as vasilhas de comida e água limpas e separadas se possível.
Se um gato estiver com sintomas ativos (espirrando ou com olho ruim), isole-o. Eu sei que é difícil em apartamento, mas o contato direto focinho-com-focinho é a principal via de transmissão. Uma quarentena rigorosa de 7 a 10 dias pode salvar a colônia toda de um surto coletivo.
Quadro Comparativo: Abordagens de Limpeza
Aqui está um guia rápido para você não errar na hora de escolher o que colocar no olho do seu gato.
| Característica | Soro Fisiológico 0.9% (Recomendado) | Loção de Limpeza Veterinária (Específica) | Água Boricada / Colírio Humano (Cuidado!) |
| Segurança | Altíssima. É isotônico, ou seja, tem a mesma “salinidade” da lágrima. Não arde e não irrita. | Alta. Formulada com pH balanceado para pets, muitas vezes remove manchas de lágrima. | Baixa/Perigosa. Água boricada pode ser tóxica se ingerida e irritante. Colírios humanos (especialmente “branqueadores”) podem matar o gato. |
| Eficácia na Limpeza | Excelente para hidratar e remover crostas e secreções do dia a dia. | Ótima para dissolver secreções e neutralizar odores. Algumas previnem o escurecimento do pelo. | Variável. Colírios humanos mascaram vermelhidão mas não tratam a causa e podem elevar a pressão ocular. |
| Custo | Muito baixo. Acessível em qualquer farmácia. | Médio/Alto. Produto especializado encontrado em pet shops. | Variável. O custo do tratamento de uma intoxicação será altíssimo. |
| Indicação Principal | Limpeza diária, lavagem antes do colírio medicamentoso, remoção de corpos estranhos. | Higiene estética da região periocular e manutenção de rotina. | Nenhuma. Não use sem prescrição veterinária estrita. |

