Olá. Imagino que você tenha saído do consultório com a cabeça cheia de dúvidas e um nome complicado ecoando nos seus ouvidos. Receber o diagnóstico ou a suspeita de Hiperadrenocorticismo, a famosa Síndrome de Cushing, assusta qualquer um no começo. Quero que você respire fundo agora. Vamos conversar de igual para igual sobre o que está acontecendo no corpo do seu cachorro. Vou te explicar tudo o que você precisa saber para cuidarmos dele juntos da melhor forma possível.
O que realmente é o Hiperadrenocorticismo
Você precisa entender primeiro quem é o vilão e quem é a vítima nessa história toda. A Síndrome de Cushing ocorre quando o corpo do seu cão é exposto a níveis crônicos e excessivos de cortisol. O cortisol é um hormônio vital que chamamos popularmente de hormônio do estresse. Ele ajuda o cão a fugir de perigos, acordar de manhã e manter o açúcar no sangue. O problema não é o cortisol existir. O problema é quando ele inunda o sistema e não desliga nunca.
As glândulas responsáveis por fabricar esse hormônio são as adrenais. Elas são duas pequenas estruturas, parecidas com amendoins, que ficam logo acima dos rins do seu pet. Em um cão saudável a hipófise lá no cérebro manda um sinal para a adrenal liberar cortisol apenas quando necessário. No cão com Cushing esse sistema de comunicação quebra. A glândula começa a trabalhar hora extra sem parar. Isso causa um desgaste imenso em todos os órgãos. O corpo fica em estado de alerta constante e começa a se deteriorar lentamente.
Essa condição é uma doença majoritariamente de cães idosos ou de meia-idade. Raramente veremos isso em um filhote. É uma doença de evolução lenta. Você muitas vezes acha que o cão está apenas “ficando velho” quando na verdade ele está doente. O excesso de cortisol faz o corpo quebrar proteínas musculares e acumular gordura em lugares errados. É por isso que a aparência dele muda tanto.
Entendendo o cortisol e a função das adrenais
O cortisol afeta quase todas as células do corpo do seu animal. Ele tem um papel anti-inflamatório natural e regula o metabolismo de carboidratos e proteínas. Quando ele está em excesso ele começa a destruir a massa muscular para transformar proteína em energia. Isso explica a fraqueza nas patas traseiras que você pode ter notado. O cão quer subir no sofá e não consegue mais.
Além disso o cortisol em excesso suprime o sistema imunológico. As adrenais trabalhando em excesso deixam seu cão suscetível a infecções que um cão normal combateria facilmente. Infecções de urina e problemas de pele tornam-se recorrentes e difíceis de curar. O corpo perde a capacidade de vigilância.
Outro ponto crucial é o efeito no fígado. O cortisol faz o fígado trabalhar dobrado e aumentar de tamanho. Chamamos isso de hepatomegalia. Esse aumento do fígado pressiona o diafragma e os músculos da barriga. Somado à fraqueza muscular isso cria aquela aparência de “barriga de pote” que é tão característica da doença.
A diferença entre Cushing Hipofisário e Adrenal
Nós veterinários dividimos o Cushing em dois tipos principais e isso muda como vamos tratar. A grande maioria dos casos, cerca de 80% a 85%, é o Cushing Hipofisário. Isso significa que existe um microtumor, geralmente benigno, lá na hipófise no cérebro. Esse tumor fica mandando ordens loucas para as adrenais produzirem cortisol sem parar. Nesse caso as duas adrenais costumam ficar aumentadas.
Os outros 15% a 20% dos casos são o que chamamos de Cushing Adrenal. Aqui o problema é na própria fábrica. Existe um tumor em uma das glândulas adrenais. Pode ser benigno ou maligno. Esse tumor produz cortisol por conta própria e ignora qualquer comando do cérebro. Geralmente detectamos isso no ultrassom porque uma glândula fica enorme e torta e a outra fica pequenininha e atrofiada.
Saber essa diferença é vital para o planejamento a longo prazo. O Cushing Adrenal pode ser cirúrgico em alguns casos. O Hipofisário é quase sempre tratado com remédios para o resto da vida. O comportamento clínico é parecido mas a origem do problema dita as nossas escolhas médicas e os riscos envolvidos.
A Síndrome de Cushing Iatrogênica ou causada por medicamentos
Existe um terceiro tipo que infelizmente nós humanos causamos. É a Síndrome de Cushing Iatrogênica. Ela acontece quando o cão recebe corticoides por muito tempo ou em doses muito altas. Isso é comum em cães que tratam alergias crônicas, problemas autoimunes ou certas dores articulares. O remédio que damos mimetiza o cortisol.
O corpo do cão não sabe diferenciar o cortisol que ele produz do corticoide que você dá na pílula ou aplica na pomada. Se o nível no sangue ficar alto por muito tempo ele desenvolve todos os sintomas da doença. A diferença aqui é que as glândulas adrenais dele estarão atrofiadas e murchas porque o corpo parou de produzir o próprio hormônio já que está vindo de fora.
O tratamento nesse cenário é diferente e delicado. Não podemos parar o remédio de uma vez. Se fizermos isso o cão entra em colapso porque as adrenais dele estão “dormindo”. Precisamos fazer um desmame muito lento para dar tempo das glândulas acordarem e voltarem a funcionar. É um processo que exige paciência sua e acompanhamento rigoroso nosso.
Identificando os sinais de alerta no seu cão
Você é a melhor ferramenta de diagnóstico que existe. Nós veterinários vemos o cão por vinte minutos mas você o vê todo dia. Os sinais do Cushing são progressivos e muitas vezes confundidos com o envelhecimento normal. Mas existe um padrão claro que, quando somado, acende a nossa luz de alerta.
O cão com Cushing não parece doente no sentido de estar prostrado e sem comer. Pelo contrário. Ele geralmente está alerta e comendo muito bem. Isso engana o tutor. Você pensa que se ele está comendo está saudável. Mas a qualidade de vida dele está caindo e o corpo está sofrendo por dentro.
Vamos detalhar o que você deve observar em casa. Se o seu cão apresenta mais de dois desses sintomas simultaneamente as chances de ser Cushing aumentam drasticamente. Não ignore mudanças de comportamento achando que é apenas “coisa da idade”. A velhice não é uma doença e não deve causar esses transtornos.
A tríade clássica de muita água e muito xixi
O sintoma mais comum e o primeiro a aparecer é a poliúria e a polidipsia. Em termos simples é beber muita água e fazer muito xixi. O cortisol interfere na capacidade dos rins de segurar a água no corpo. O cão sente uma sede incontrolável. Ele pode começar a beber água de vasos de plantas, do box do banheiro ou ficar pedindo para encher a vasilha toda hora.
Consequentemente a produção de urina aumenta. O cão que sempre foi educado e fazia xixi no lugar certo começa a fazer dentro de casa. Ele não consegue segurar a noite toda. A urina costuma ser bem clara, quase transparente, parecendo água pura. Isso acontece porque ela está muito diluída.
Muitos tutores reclamam que o cão está “ficando sujo” ou “desaprendendo”. Não brigue com ele. Ele fisicamente não consegue concentrar a urina. É um mecanismo fisiológico de defesa do corpo tentando eliminar o excesso de hormônio e lidando com a interferência nos rins. É o sinal mais clássico de que precisamos investigar as adrenais.
A fome excessiva e as mudanças corporais visíveis
Outro sinal marcante é a polifagia. O cão vira um aspirador de pó. Ele rouba comida da mesa, revira o lixo e late pedindo comida o tempo todo. O cortisol mexe com o centro de saciedade no cérebro e altera o metabolismo de glicose. O animal sente que está morrendo de fome mesmo tendo acabado de comer.
Fisicamente você notará a barriga dilatada. Chamamos de abdômen pendular. A gordura se redistribui para a região abdominal e os músculos da parede da barriga enfraquecem. O peso do fígado aumentado e dos órgãos internos empurra tudo para baixo. O cão fica parecendo um barrilzinho com as patas finas.
A respiração também muda. O cão com Cushing costuma ficar ofegante mesmo em dias que não estão quentes ou quando está parado. O excesso de peso, a fraqueza muscular do diafragma e o fígado grande dificultam a expansão do pulmão. Esse ofego constante, conhecido como taquipneia, é um sinal de desconforto que não deve ser ignorado.
Problemas dermatológicos e a famosa pele de papel
A pele do cão com Cushing é um capítulo à parte. O cortisol inibe a produção de colágeno e a renovação das células da derme. A pele fica fina, inelástica e frágil. Se você puxar uma dobra de pele ela demora para voltar ao lugar. Em casos graves qualquer esbarrão ou tosa pode causar feridas que demoram uma eternidade para cicatrizar.
A queda de pelo é muito característica. Geralmente é uma alopecia simétrica e bilateral. O cão perde pelo nos flancos e no tronco mas mantém a cabeça e as patas peludas. O rabo pode ficar parecendo um “rabo de rato”, sem pelos. A pele exposta muitas vezes fica escura e cheia de cravos, os comedões.
Outra alteração estranha é a Calcinose Cutânea. São placas duras, como se fossem pedras, que se formam na pele. Isso acontece porque o cálcio se deposita ali. Essas placas podem inflamar e infeccionar causando muito incômodo. Se você notar áreas duras e vermelhas na pele, especialmente na barriga ou costas, mostre para nós imediatamente.
A jornada do diagnóstico veterinário
Diagnosticar Cushing não é tão simples quanto fazer um exame de sangue comum. É um quebra-cabeça. Muitas outras doenças imitam o Cushing. Diabetes e problemas no fígado podem ter sintomas parecidos. Precisamos ter certeza absoluta antes de começar o tratamento porque os remédios são potentes e podem ser perigosos se usados no cão errado.
Nós seguimos um protocolo de etapas. Primeiro descartamos o óbvio. Depois buscamos evidências indiretas. Só então partimos para os testes confirmatórios hormonais. Não se assuste com a quantidade de exames solicitados. Cada um deles é uma peça fundamental para montarmos a imagem completa da saúde do seu amigo.
Não existe um único teste perfeito. Às vezes os testes dão resultados inconclusivos e precisamos repetir ou usar uma técnica diferente. Tenha paciência nessa fase. Um diagnóstico correto é a base para um tratamento seguro. Tratar um cão que não tem Cushing com remédios para Cushing pode ser fatal.
Exames de triagem e alterações no hemograma
Tudo começa com o hemograma completo e o bioquímico. No hemograma de um cão com Cushing frequentemente vemos o que chamamos de “leucograma de estresse”. As células de defesa estão alteradas de uma forma específica sugerindo a ação crônica do cortisol. As plaquetas também podem estar aumentadas, o que favorece a formação de coágulos.
No exame bioquímico o grande marcador é uma enzima do fígado chamada Fosfatase Alcalina (FA). Em cães com Cushing a FA costuma estar muito, muito alta. O colesterol e os triglicérides também costumam subir bastante. A glicose pode estar levemente alta mas se estiver muito alta precisamos investigar diabetes concomitante.
A urinálise é essencial. Esperamos encontrar uma densidade urinária baixa, ou seja, uma urina muito diluída. Também procuramos por infecções urinárias silenciosas. Como o cortisol disfarça a inflamação o cão pode ter uma infecção grave na bexiga sem sentir dor ou desconforto ao urinar. Precisamos tratar essa infecção antes de qualquer coisa.
Testes hormonais específicos de supressão e estimulação
Se a triagem sugeriu Cushing partimos para os testes funcionais. O mais comum é a Supressão com Dexametasona em dose baixa. Nós colhemos sangue, aplicamos uma dose pequena de corticoide sintético e colhemos sangue de novo após 4 e 8 horas. Em um cão normal a adrenal pararia de produzir cortisol ao perceber o corticoide extra. No cão com Cushing ela ignora e continua produzindo.
Outro teste é a Estimulação com ACTH. Nós injetamos o hormônio que estimula a adrenal e medimos como ela responde. Se ela responder de forma exagerada, produzindo uma explosão de cortisol, confirma-se a doença. Esse teste é mais rápido mas o medicamento (ACTH sintético) pode ser caro e difícil de encontrar em alguns momentos.
Existe também a relação Cortisol/Creatinina urinária. É um teste de triagem feito com a urina que você coleta em casa. É ótimo para descartar a doença. Se der negativo é quase certeza que não é Cushing. Se der positivo não confirma pois o estresse de outras doenças pode alterar o resultado. Ele serve para dizer “não é Cushing” mas não para dizer “é Cushing”.
O papel vital do ultrassom abdominal na decisão
O ultrassom é os nossos olhos dentro da barriga. Ele é crucial para diferenciar o tipo de Cushing. Se encontrarmos duas glândulas adrenais gordinhas e aumentadas de tamanho simetricamente isso aponta para o tumor na hipófise (cérebro). É o cenário mais comum.
Se encontrarmos uma adrenal muito grande e deformada e a outra muito pequena e difícil de achar isso aponta para um tumor na própria adrenal. A glândula tumoral cresceu e a saudável atrofiou por falta de uso. O ultrassom também nos ajuda a ver se esse tumor invadiu vasos sanguíneos importantes como a veia cava.
Além das adrenais o ultrassom avalia o fígado e procura por outras doenças ocultas. Tumores no baço ou pedras na bexiga são achados comuns em cães idosos e precisamos saber se eles existem. O laudo de um ultrassonografista experiente é metade do caminho para o sucesso do nosso tratamento.
Opções de tratamento e controle da doença
Cushing tem controle mas raramente tem cura definitiva, exceto em alguns casos cirúrgicos. O objetivo do tratamento não é fazer os exames ficarem perfeitos no papel. O objetivo é fazer o seu cão voltar a ser ele mesmo. Queremos que ele pare de beber tanta água, que o pelo volte a crescer e que ele tenha disposição.
A decisão de tratar depende dos sintomas. Se o cão tem exames alterados mas não tem sintomas clínicos às vezes optamos por apenas acompanhar. Mas se ele tem sintomas que afetam a qualidade de vida e a sua convivência com ele, o tratamento é obrigatório. A doença não tratada leva a diabetes, hipertensão, trombose e problemas renais graves.
Vamos focar nas opções medicamentosas pois são as mais comuns. O tratamento exige compromisso. Os remédios são para a vida toda e as doses precisam de ajustes frequentes. Não é um tratamento barato mas devolve a dignidade e a alegria ao animal.
O uso do Trilostano como padrão ouro
Atualmente o Trilostano é a droga de escolha mundial. Ele age inibindo uma enzima específica na adrenal bloqueando a produção de cortisol. É uma ação reversível e mais segura. Se pararmos o remédio a produção volta. Isso nos dá uma margem de segurança caso a dose esteja alta demais.
A eficácia é excelente. A maioria dos cães para de beber tanta água em duas semanas. A pele e o pelo demoram mais, cerca de três a seis meses para vermos a melhora total. O Trilostano deve ser dado junto com a comida para ser bem absorvido. Nunca dê de estômago vazio.
O medicamento comercial mais conhecido é o Vetoryl. Ele vem em cápsulas de doses fixas. A grande vantagem é a consistência e a estabilidade do fármaco. Sabemos exatamente o que tem ali. É a opção mais segura e recomendada sempre que o orçamento permitir.
Mitotano e outras alternativas terapêuticas
Antigamente usávamos muito o Mitotano (Lysodren). Ele é na verdade um quimioterápico. Ele destrói as células da adrenal. O objetivo é causar uma necrose controlada de parte da glândula. É um tratamento eficaz mas muito mais arriscado. A linha entre a dose terapêutica e a dose tóxica é muito tênue.
O Mitotano exige uma fase de indução onde damos o remédio todo dia até o cão parar de comer ou vomitar (sinal que o cortisol caiu). Depois entramos na manutenção semanal. Hoje reservamos o Mitotano para casos de tumores de adrenal ou quando o Trilostano falha. Os efeitos colaterais são mais severos e frequentes.
Existem outras drogas como o Cetoconazol e a Selegilina mas elas têm eficácia muito baixa ou controversa para Cushing. O Cetoconazol bloqueia o cortisol mas causa muito dano ao fígado. Geralmente não recomendamos essas opções a não ser em situações de paliativo financeiro extremo onde não há outra escolha.
Quando a cirurgia se torna uma opção viável
A adrenalectomia, ou retirada da glândula adrenal, é indicada para tumores adrenais. Se o tumor for benigno e não tiver invadido vasos sanguíneos a cirurgia pode ser curativa. Tiramos a glândula doente e o problema acaba. É uma cirurgia delicada e de alto risco, devendo ser feita por especialistas.
Para tumores na hipófise existe a cirurgia de hipofisectomia (retirar a hipófise pelo céu da boca). É comum na Europa e EUA mas ainda raríssima no Brasil. Exige uma equipe de neurocirurgia altamente treinada. Por aqui o tratamento medicamentoso continua sendo a primeira escolha para o Cushing hipofisário.
Se o seu cão tem um tumor adrenal nós vamos conversar muito sobre os prós e contras da cirurgia versus o tratamento clínico. Fatores como a idade do cão, a presença de metástases e a condição financeira pesam nessa decisão difícil.
Comparativo de Opções Terapêuticas
| Característica | Trilostano (Vetoryl) | Trilostano Manipulado | Mitotano |
| Segurança | Alta. É o único aprovado especificamente para uso veterinário. Dose consistente. | Média/Baixa. A estabilidade do pó manipulado varia muito entre farmácias. Risco de subdosagem. | Baixa. Risco alto de destruir totalmente a adrenal irreversivelmente. Efeitos colaterais comuns. |
| Custo | Alto. É um medicamento importado e de tecnologia patenteada. | Médio. Mais acessível que o original, mas exige mais exames para confirmar se está funcionando. | Médio/Alto. O custo dos exames de monitoramento frequentes encarece o tratamento. |
| Eficácia | Excelente. Resultados previsíveis e controle rápido dos sintomas. | Variável. Pode funcionar bem ou não fazer efeito algum dependendo da qualidade da manipulação. | Boa. Muito potente, mas difícil de ajustar a dose fina (“dose titulação”). |
Nutrição e manejo ambiental em casa
O tratamento não termina na pílula que você dá de manhã. A rotina em casa precisa de ajustes para apoiar a recuperação dele. A nutrição desempenha um papel fundamental. Cães com Cushing têm o metabolismo de gorduras alterado e o fígado sobrecarregado. Uma dieta adequada pode reduzir a carga sobre o organismo.
O ambiente também precisa ser adaptado. Lembre-se que você está lidando com um cão idoso e com fraqueza muscular. Pisos lisos são inimigos. Tapetes higiênicos extras são necessários. O conforto dele depende de pequenas adaptações que você faz na sua casa.
Você precisa ser o guardião do bem-estar dele. Observar quanto ele come, se as fezes estão normais e se ele está dormindo bem. Essas informações sutis ajudam a ajustar o tratamento antes que uma crise aconteça.
Ajustando a dieta para proteger o fígado e controlar o peso
A dieta ideal para um cão com Cushing deve ser de alta digestibilidade. Precisamos de proteínas de excelente qualidade para tentar recuperar a massa muscular perdida. Evite rações de manutenção baratas que usam subprodutos. Invista em uma linha Super Premium ou, se possível, uma dieta terapêutica prescrita.
O teor de gordura deve ser moderado a baixo. Como eles têm hiperlipidemia (gordura no sangue) alta, dietas muito gordurosas podem desencadear uma pancreatite, que é uma inflamação grave e dolorosa. Fibras são bem-vindas para ajudar a controlar a glicemia e dar saciedade, já que eles sentem muita fome.
Não ceda aos pedidos por petiscos gordurosos. Se ele pedir comida dê pedaços de cenoura, abobrinha ou chuchu cozido. Evite dar restos de churrasco, queijos ou pães. O fígado dele já está lutando para metabolizar o básico; não vamos dar mais trabalho para esse órgão.
Gerenciando o ambiente para um cão que urina muito
Enquanto o remédio não faz efeito total a poliúria vai continuar. Não restrinja a água jamais. Eu repito: nunca tire a água do seu cão com Cushing para tentar fazer ele urinar menos. Ele urina muito porque perde água. Se você tirar a água ele desidrata rapidamente e pode ter insuficiência renal aguda.
Aumente o número de bebedouros pela casa. Mantenha a água sempre fresca. E aumente a disponibilidade de locais para ele fazer xixi. Se ele usa tapete higiênico coloque dois ou três juntos para aumentar a área de absorção. Se ele dorme dentro de casa considere levá-lo para fora uma vez a mais durante a noite nas primeiras semanas.
Facilite o acesso. Se ele tem fraqueza nas patas evite que ele tenha que subir escadas para beber água ou sair para o jardim. Rampas podem ajudar. Pisos antiderrapantes ou passadeiras de borracha ajudam ele a se levantar sem escorregar o que evita lesões articulares e aumenta a confiança dele.
Cuidados especiais com a pele fragilizada e feridas
A pele fina do Cushing exige delicadeza. Evite escovar com força. Use escovas de cerdas macias. Na hora do banho use xampus hidratantes e hipoalergênicos. A barreira de proteção da pele está defeituosa então xampus muito fortes podem irritar. A água deve ser morna, nunca quente.
Se aparecerem feridas trate imediatamente. A cicatrização é lenta e o risco de infecção é alto. Não deixe ele lamber. O uso do colar elizabetano pode ser necessário. Fique atento a sinais de Calcinose (aquelas pedras na pele). Se elas infectarem precisaremos usar antibióticos e banhos com antissépticos.
Cuidado com o sol. Cães com pouca pelagem no tronco podem sofrer queimaduras solares facilmente. Evite passeios nos horários de sol forte e se necessário use roupinhas leves de algodão para proteger a pele exposta, mas cuidado para não superaquecer o animal.
Monitoramento a longo prazo e qualidade de vida
Tratar Cushing é uma maratona, não uma corrida de cem metros. Vamos ter altos e baixos. O monitoramento é a chave para manter a estabilidade. O maior erro é achar que “está tudo bem” e parar de fazer os exames de controle. A dose que funciona hoje pode ser tóxica amanhã se a glândula mudar de comportamento.
Precisamos estabelecer uma parceria de confiança. Eu preciso que você me diga a verdade sobre se está dando o remédio certo, nos horários certos. E eu vou ser honesto com você sobre o prognóstico. O objetivo é que ele viva bem, não que ele viva sofrendo com exames e estresse desnecessário.
Acompanhar o Cushing exige investimento financeiro e emocional. Prepare-se para visitas regulares à clínica. No começo a cada 15 ou 30 dias. Depois, se tudo estiver estável, a cada 3 ou 4 meses. Esse ritmo é necessário para a segurança dele.
A frequência necessária dos exames de controle
O teste de estimulação com ACTH é o nosso guia para ajustar a dose do Trilostano. Fazemos o primeiro teste cerca de 10 a 14 dias após começar o remédio. Precisamos colher o sangue num horário específico após a pílula ser ingerida (geralmente 4 horas depois). Isso é crucial para saber o pico de ação do remédio.
Também monitoramos os eletrólitos (Sódio e Potássio). O Trilostano pode alterar esses sais minerais no sangue e causar problemas cardíacos se não vigiarmos. A função renal e hepática também entra no check-up regular.
Não tente ajustar a dose por conta própria baseada no “olhômetro”. “Ah, ele voltou a beber muita água, vou dar dois comprimidos”. Não faça isso. Sintomas de dose baixa e dose alta podem se confundir. Só o exame de sangue nos diz a direção certa para seguir.
O perigo da crise de Addison e a superdosagem
O maior risco do tratamento do Cushing é causarmos o oposto: o Addison (Hipoadrenocorticismo). Isso acontece quando o remédio funciona demais e bloqueia totalmente o cortisol ou quando há uma necrose da glândula. Uma crise de Addison é uma emergência médica com risco de morte.
Os sinais de que a dose está alta demais incluem: vômitos, diarreia (às vezes com sangue), tremores, recusa total de comida e uma prostração súbita. O cão parece que “desligou”. Se isso acontecer pare o remédio imediatamente e corra para o veterinário.
Nós preferimos manter o cão levemente “Cushingóide” (com sintomas leves) do que arriscar uma crise de Addison. O controle perfeito é inimigo do bom. Se ele bebe um pouquinho mais de água que o normal mas está feliz e comendo, às vezes é melhor do que aumentar a dose e causar um colapso.
Expectativa de vida e conforto do paciente geriátrico
Com o tratamento correto a expectativa de vida de um cão com Cushing é muito boa. Muitos vivem anos com qualidade, vindo a falecer de outras causas naturais da velhice e não da doença em si. O tumor na hipófise geralmente cresce muito devagar e não causa problemas neurológicos na maioria dos cães.
O nosso foco deve ser o conforto. Avalie sempre se ele está feliz. Ele interage com a família? Ele gosta de passear? Ele tem apetite? Se a resposta for sim, estamos ganhando o jogo. Se o tratamento estiver causando mais estresse que a doença, precisamos reavaliar nossa estratégia.
Você não está sozinho nessa jornada. A Síndrome de Cushing é complexa e desafiadora mas é perfeitamente gerenciável. Com o seu amor e cuidado diário, somado à nossa ciência e acompanhamento, seu cão pode ter uma velhice tranquila e digna ao seu lado. É isso que buscamos. Vamos começar esse tratamento?

